Nos últimos anos, as polêmicas envolvendo a arbitragem no futebol brasileiro se intensificaram. Nem mesmo a introdução do árbitro de vídeo, o VAR, foi capaz de reduzir as controvérsias. Pelo contrário, alguns lances inacreditáveis continuam sendo mal interpretados, gerando indignação entre torcedores, jogadores e dirigentes.
Além disso, algumas estratégias, como a de paralisar o jogo repetidamente para irritar os atletas, levantam questionamentos sobre a eficiência e a imparcialidade da arbitragem. Recentemente, houve situações de claro favorecimento a equipes que não resultaram em nenhuma punição. A arbitragem continua sendo uma caixa-preta.
A Série A do Campeonato Brasileiro começou há pouco e, como esperado, a arbitragem já é alvo de discussões. As falhas e as decisões controversas, que se arrastam por temporadas inteiras, acabam por desmoralizar o campeonato e fomentar suspeitas de favorecimento, levantando preocupações quanto a possíveis manipulações de resultados, sobretudo diante do crescente impacto das apostas esportivas no cenário futebolístico.
O contexto econômico atual também contribui para a pressão sobre a arbitragem. Com a criação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), houve um incremento significativo de recursos, somado ao aumento nos valores pagos pelos direitos de transmissão e em premiações por desempenho, especialmente na Série A. Diante de cifras tão elevadas, é injustificável que as arbitragens permaneçam seguindo um modelo precário de gestão e sem a devida profissionalização.
Mudanças na Estrutura de Arbitragem
Reconhecendo a gravidade da situação, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) recentemente demitiu Wilson Luiz Seneme e criou um Comitê Consultivo de Arbitragem, composto por especialistas nacionais e internacionais. Entre os membros estão nomes de peso, como: Néstor Pitana (Argentina), que apitou a final da Copa do Mundo de 2018; Nicola Rizzoli (Itália), responsável pela final da Copa do Mundo de 2014; e Sandro Meira Ricci (Brasil), que atuou nas Copas de 2014 e 2018.
A presença de árbitros renomados no comitê traz a esperança de maior capacitação e modernização dos procedimentos. No entanto, apenas a composição de um grupo de especialistas não é suficiente para resolver os problemas estruturais e sistêmicos da arbitragem brasileira.
Profissionalização: Uma Questão Urgente
Um dos problemas da arbitragem brasileira reside na falta de profissionalização dos árbitros que atuam nas principais competições nacionais. Hoje, as informações da CBF apontam que um árbitro da Federação Internacional de Futebol (Fifa) na Série A recebe por jogo R$ 7.280, enquanto um árbitro da CBF ganha R$ 5.250. Já os assistentes e os árbitros de vídeo recebem R$ 4.370 (Fifa) e R$ 3.150 (CBF) na Primeira Divisão. Tais valores são irrisórios se comparados aos montantes movimentados pelos clubes e pelas casas de apostas.
Fora isso, o fato de a arbitragem ser frequentemente uma atividade secundária para muitos profissionais — que acumulam funções como professores, empresários, servidores públicos, delegados e até militares — compromete a dedicação exclusiva e, consequentemente, a qualidade das decisões.
O árbitro de futebol deve ser um profissional exclusivo, tal qual ocorre com magistrados, com poucas exceções. E deve contar com uma carreira estruturada, salários fixos mensais, adicionais por deslocamento e transparência na gestão de seus rendimentos. Tais valores e declarações de renda deveriam ser regularmente auditados por órgãos independentes, garantindo a lisura e a imparcialidade.
Um bom exemplo vem da Inglaterra. A gestão da arbitragem na Premier League é realizada pela Professional Game Match Officials Limited (PGMOL), criada em 2001, que supervisiona a arbitragem na Premier League, na English Football League (EFL) e nas competições da Football Association (FA).
Dentro da PGMOL, o Select Group One é composto pelos árbitros mais renomados, incluindo 20 profissionais em tempo integral dedicados exclusivamente às partidas da Premier League. Esses árbitros recebem um salário anual que varia de £72.000 a £148.000 (entre R$ 450.000 e R$ 925.000), dependendo da experiência e do nível de senioridade. Recebem ainda taxas por partida e bônus relacionados a desempenho, podendo chegar a £250.000 por ano (cerca de R$ 1.560.000).
Essa estrutura profissional permite que os árbitros se dediquem exclusivamente às suas funções de arbitragem, garantindo que atendam aos altos padrões exigidos para os jogos da Premier League.
Regulação e Gestão Independente
Para solucionar as falhas crônicas da arbitragem brasileira, seria fundamental aprovar uma legislação específica que regulamentasse a profissão de árbitro de futebol, atribuindo ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) a responsabilidade pela gestão e fiscalização, em vez de delegá-la à CBF.
É essencial ainda que a escala de arbitragem para os jogos seja realizada por sorteio, a fim de reduzir interferências políticas e favorecimentos. Também deveria ser estabelecido um limite para o número de jogos apitados por cada árbitro com relação a cada equipe, a fim de se evitar que certos clubes sejam mais ou menos beneficiados por determinados profissionais.
Considerações Finais
É inaceitável que, em meio a uma indústria bilionária que movimenta contratos astronômicos e bilhões em apostas, a remuneração dos árbitros continue tão baixa e a gestão, tão precária. Não faz sentido que um árbitro da Fifa receba pouco mais de R$ 7 mil por jogo, enquanto dirigentes de federações estaduais percebam salários mensais superiores a R$ 200 mil, pagos pela CBF.
Regulamentar e profissionalizar a arbitragem não é apenas uma demanda dos clubes e dos atletas, é também uma exigência do público, que deseja um campeonato mais justo, transparente e livre de suspeitas. É preciso agir rapidamente para resgatar a credibilidade do futebol brasileiro, garantindo que a arbitragem esteja à altura da grandeza do esporte e dos valores nele envolvidos.