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Análise: Integração e centralização como base da reforma da Segurança Pública

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Brasília (DF), 13/02/2025 - O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, apresenta balanço detalhado dos investimentos e das medidas implementadas pela pasta para reforçar a segurança nas unidades prisionais do Sistema Penitenciário Federal. O foco da apresentação terá ênfase nas ações executadas após a fuga de dois detentos da Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, em 14 de fevereiro de 2024.
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 18/2025, apresentada pelo governo federal em 23 de abril, marca uma tentativa audaciosa de reconfigurar a segurança pública brasileira. A proposta busca dar status constitucional ao Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), instituído em 2018, tornando-o um instrumento permanente e prioritário nas políticas de Estado. O objetivo declarado é claro: combater com maior eficácia o crime organizado por meio da integração das forças de segurança e da centralização das diretrizes operacionais e de inteligência.

A lógica que sustenta a PEC parte do diagnóstico de que o atual modelo de segurança pública brasileiro é excessivamente fragmentado. Estados, municípios e a União atuam de forma desarticulada, dificultando o enfrentamento de crimes de alta complexidade, como o tráfico internacional de drogas, o comércio ilegal de armas e a proliferação de milícias. A proposta, estruturada em cinco eixos centrais, visa criar um sistema coordenado, padronizado e transparente, apoiado em um robusto aparato de inteligência e em fontes estáveis de financiamento.

No centro da reforma está a consolidação do papel da União como coordenadora nacional. Sem eliminar a autonomia dos entes federativos, o texto propõe que a União legisle sobre o sistema penitenciário e defina diretrizes gerais do SUSP. Paralelamente, prevê a unificação de bancos de dados e protocolos, com a intenção de facilitar o compartilhamento de informações e integrar operações entre forças federais, estaduais e municipais. A Polícia Federal ampliaria seu escopo de atuação, passando a investigar também crimes ambientais e milicianos, enquanto a atual Polícia Rodoviária Federal ganharia um novo nome e novas atribuições — atuando em rodovias, ferrovias e hidrovias como Polícia Viária Federal. As Guardas Municipais, por sua vez, seriam incorporadas ao policiamento ostensivo.

Um dos pilares mais estratégicos da PEC é a criação de um sistema nacional de inteligência, integrando agências de todos os níveis de governo em uma única rede. Atualmente, os órgãos de inteligência operam de forma isolada, com intercâmbio de dados limitado e pouco eficiente. A proposta visa mudar esse cenário com uma rede interconectada que permita antecipar ações de organizações criminosas, mapear suas redes de financiamento e realizar operações de prevenção com maior precisão e agilidade.

Contudo, a proposta levanta uma questão sensível: os riscos da centralização. Embora a padronização de protocolos, a coordenação centralizada e a unificação de sistemas possam otimizar a gestão de recursos, eliminar redundâncias e melhorar a resposta a crises, a centralização excessiva pode comprometer a adaptabilidade operacional. Facções criminosas atuam de maneira descentralizada, com alta capacidade de adaptação local. Um sistema rigidamente centralizado pode ser lento para responder às especificidades regionais, seja em favelas urbanas, seja em comunidades ribeirinhas da Amazônia. A dependência de sistemas nacionais de inteligência e a burocratização das decisões podem se tornar pontos de vulnerabilidade, sobretudo diante de falhas técnicas ou entraves administrativos.

Esse dilema exige uma solução de equilíbrio: a PEC deverá combinar diretrizes unificadas com margens de flexibilidade local. Estados e municípios precisam dispor de autonomia para adaptar ações às suas realidades. A adoção de tecnologias ágeis, como inteligência artificial e big data, será crucial para manter o sistema responsivo às ameaças emergentes.

Do ponto de vista governamental, os efeitos positivos esperados da PEC são expressivos. A integração dos dados e das ações promete desmantelar redes criminosas com maior eficiência, ao permitir a identificação de líderes, rotas de tráfico e fontes de financiamento. A prevenção de crimes violentos seria favorecida pela antecipação de ameaças via inteligência estratégica. A atuação das Guardas Municipais e da nova Polícia Viária Federal em regiões vulneráveis deve ampliar a sensação de segurança. A garantia de recursos via FNSP e Funpen também assegura investimentos continuados em tecnologia, capacitação e infraestrutura penitenciária. Além disso, a criação de corregedorias e ouvidorias autônomas contribuirá para o aumento da transparência e da confiança da população nas instituições.

Apesar de seu potencial transformador, a PEC 18/2025 enfrentará desafios políticos e operacionais significativos. Sua aprovação depende do apoio de três quintos dos parlamentares, e já há resistência de alguns governadores, como Ronaldo Caiado (GO), preocupados com a perda de autonomia estadual. A resistência corporativa entre as polícias, especialmente quanto à ampliação do papel das Guardas Municipais, é outro entrave relevante. Há também limitações fiscais que podem comprometer os investimentos necessários à implementação dos sistemas integrados.

Em síntese, a PEC 18/2025 representa uma tentativa de romper com a lógica reativa e fragmentada da segurança pública no Brasil. Ao apostar na integração de inteligência e na centralização coordenada, o governo federal busca um novo paradigma no combate ao crime organizado. O sucesso da proposta, contudo, dependerá da capacidade de equilibrar uniformização com flexibilidade, centralização com autonomia, e planejamento estratégico com execução descentralizada. Não se trata de um desafio fácil de ser superado.

Senado aprova plano para debater Política Nacional de Reforma Agrária

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CRA - Comissão de Agricultura e Reforma Agrária Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) realiza reunião com 6 itens. Entre eles, o PL 1.740/2024, que altera a Lei nº 10.233, de 05 de junho de 2001, para incumbir a ANTT de regulamentar o transporte próprio de cargas perigosas destinadas à manutenção de atividades rurais. À bancada, em pronunciamento, senador Jaime Bagattoli (PL-RO).
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O plano de trabalho para a avaliação da Política Nacional da Reforma Agrária (PNRA) foi aprovado nesta quarta-feira (30) pela Comissão de Agricultura (CRA) do Senado. A proposta, apresentada pelo senador Jaime Bagattoli (PL-RO), prevê a realização de quatro audiências públicas até agosto.

O colegiado deve tratar de temas como o diagnóstico do PNRA, com análises e propostas para a melhoria do programa; as consequências das invasões de terra, com foco no direito de propriedade e na segurança jurídica no campo; a percepção de ex-presidentes e do atual dirigente do Incra sobre a política; e a visão de agentes envolvidos na execução do programa, reunindo críticas, esperanças e sugestões.

Além das audiências, também serão solicitadas informações para subsidiar o relatório final, que deve ser apresentado em novembro.

Falhas

Ao apresentar o plano à comissão, o relator apontou documentos do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU) que mostram lotes vagos, falta de acompanhamento e famílias em situação de vulnerabilidade extrema, sem acesso adequado a infraestrutura, assistência técnica e titulação definitiva das terras.

“Auditorias recentes de órgãos de controle apontam para falhas severas na implementação e na consolidação dos assentamentos rurais, além de indícios de irregularidades na destinação de recursos públicos” disse.

Para ele, a comissão pode contribuir para o aprimoramento das políticas públicas do PNRA, e para efetividade de uma melhor distribuição da terra. A ideia é apresentar  propostas de modificação no regime de posse e de uso, para que sejam atendidos os princípios da eficiência econômica e justiça social

CPI do INSS é protocolada na Câmara, mas esbarra em impasse regimental

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CPI INSS
Foto: Júlia Lopes/Política Brasileira

A Câmara dos Deputados recebeu nesta quarta-feira (30) o requerimento de instalação da CPI do INSS, protocolado com 185 assinaturas. O objetivo é investigar o esquema de corrupção revelado pela Operação Sem Desconto, que revelou um desvio de R$ 6,3 bilhões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre 2019 e 2024.

Apesar do avanço, a criação da CPI enfrenta um entrave regimental: será a 14ª comissão na fila de espera na Presidência da Câmara. Pelo regimento interno, apenas cinco CPIs podem funcionar simultaneamente, e a instalação deve seguir a ordem cronológica de protocolo.

Solução alternativa

Segundo o líder do PL, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), o tema foi discutido com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), durante a reunião do colégio de líderes. De acordo com Cavalcante, Motta se comprometeu a buscar soluções dentro do regimento para permitir a criação da CPI do INSS.

Uma das alternativas ventiladas é a formação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), que incluiria deputados e senadores, o que permitiria contornar a limitação de comissões simultâneas na Câmara dos Deputados.

“Há uma questão regimental e cronológica que ele vai analisar. O presidente Hugo falou que vai buscar umas formas regimentais paralelas a isso”, declarou Sóstenes.

Esquema de fraude no INSS

A fraude no INSS foi revelada pela Polícia Federal em abril de 2025 por meio da Operação Sem Desconto. A investigação apontou que entidades de classe firmaram Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS para realizar descontos não autorizados em benefícios de aposentados e pensionistas.

O prejuízo estimado é de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, resultado de cobranças irregulares inseridas diretamente nos contracheques dos beneficiários. Os valores desviados eram repassados a essas entidades, sem o consentimento dos aposentados.

Presidente do INSS é afastado por envolvimento no caso

No mesmo dia, 24 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou a demissão do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, que já havia sido afastado pela Justiça no contexto das investigações da Polícia Federal.

Governo defende jornada máxima de 40 horas para acabar com 6×1

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Brasília (DF) 30/04/2025 - Ministro do Trabalho, Luiz Marinho, participa do programa Bom Dia, Ministro, apresentado por Karine Melo
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Em vez de avançar com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala de trabalho 6×1, o governo avalia adotar uma estratégia alternativa para reduzir a carga horária semanal dos trabalhadores. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), defende diminuir o limite de horas semanais de 44 para 40, sem alterar a jornada diária máxima ou o número de dias consecutivos de trabalho.

Apesar de reconhecer resistência do setor empresarial, especialmente em comércio e serviços, Marinho afirmou durante participação no programa Bom Dia Ministro nesta quarta-feira (30) que a redução é “plenamente possível e necessária”. Ele destacou a importância de um período de transição para adaptação das empresas.

Duas PECs propõem mudanças na jornada

Apoiada pelo governo, a PEC que prevê o fim do regime 6×1 (PEC 8/2025) foi apresentada na Câmara em 25 de fevereiro pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP). O texto estabelece uma jornada máxima de quatro dias semanais de trabalho e três de descanso. Hilton atribuiu a lentidão no avanço da proposta à espera pela nova presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJC), ocupada em 2023 pelo PL, partido de oposição.

“No ano passado, a presidência da CCJ tinha uma interpretação que poderia desmobilizar a proposta. Por isso, optamos por aguardar o momento adequado para apresentá-la”, explicou a deputada.

Outra proposta em discussão é a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que reduz gradualmente a carga horária de 44 para 36 horas semanais em dez anos, estabelecendo a escala 5×2. As propostas já são temas de discussão na Câmara e no Senado.

Impactos em debate

Defensores da mudança argumentam que mais tempo livre aumentaria a qualidade de vida dos trabalhadores e, consequentemente, a produtividade nacional. Críticos, por outro lado, alertam para o risco de elevação de custos para empregadores, o que poderia impactar setores com margens apertadas. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que, apenas no setor industrial, os gastos diretos com funcionários formais subiriam R$ 113 bilhões caso a jornada seja reduzida.

 

Desemprego segue em patamar historicamente baixo, mesmo subindo 7% no 1ª trimestre

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Carteira de trabalho, emprego, desemprego
Foto: Geraldo Bubniak/AEN

A taxa de desemprego no Brasil ficou em 7% no primeiro trimestre de 2025, de acordo com a PNAD Contínua, divulgada nesta quarta-feira (30) pelo IBGE. O número representa um aumento de 0,8 ponto percentual em relação ao trimestre anterior (6,2%), encerrado em dezembro, mas uma queda de 0,9 ponto percentual frente ao mesmo período de 2024 (7,9%).

Mesmo com o aumento no trimestre, o índice representa o menor patamar já registrado para trimestres encerrados em março desde o início da série histórica, em 2012. Segundo o IBGE, a alta no desemprego é sazonal, comum após o fim de contratos temporários de fim de ano.

Mercado de trabalho

A população desocupada foi estimada em 7,7 milhões de pessoas, crescimento de 13,1%  ante o trimestre anterior, mas queda de 10,5% na comparação anual. Já a população ocupada chegou a 102,5 milhões de brasileiros, uma queda trimestral de 1,3%, mas com aumento de 2,3% no ano, o que indica uma recuperação consistente no longo prazo.

O nível de ocupação (proporção de pessoas em idade de trabalhar que estão empregadas) ficou em 57,8%.

Entre os trabalhadores com carteira assinada no setor privado, o número se manteve estável em 39,4 milhões, mas apresentou alta de 3,9% no ano. Já os sem carteira assinada totalizaram 13,5 milhões, com queda de 5,3% no trimestre e estabilidade anual.

Informalidade e subutilização

A taxa de informalidade ficou em 38% da população ocupada, praticamente estável em relação ao trimestre anterior (38,6%) e idêntica à do mesmo período de 2024. Ao todo, são 38,9 milhões de trabalhadores informais no Brasil, incluindo autônomos e empregados sem carteira.

A taxa de subutilização, que considera pessoas que trabalham menos do que poderiam ou que gostariam de trabalhar, mas não encontram oportunidade, foi de 15,9%, um aumento de 0,6 ponto percentual no trimestre, mas uma queda de 2 pontos no ano. A população subutilizada está em 18,5 milhões de pessoas.

Rendimento médio bate recorde

Apesar da leve retração no nível de ocupação, os rendimentos dos trabalhadores atingiram um novo recorde: o rendimento médio real habitual foi de R$ 3.410 por mês, crescimento de 1,2% no trimestre e 4% no ano.

A massa de rendimentos totalizou R$ 345 bilhões, mantendo estabilidade trimestral, mas com alta de 6,6% em relação ao ano anterior — um acréscimo de R$ 21,2 bilhões.

População fora da força de trabalho e desalentados

A população fora da força de trabalho somou 67 milhões de pessoas, com crescimento de 1,2% no trimestre e estabilidade no ano. Esse grupo inclui aposentados, estudantes e pessoas que não têm interesse ou condições de buscar emprego.

Entre eles, os desalentados — aqueles que desistiram de procurar trabalho — somam 3,2 milhões, aumento de 6,6% no trimestre e queda de 10,2% em relação a 2024.

Mudanças que “destruiriam o PAT” foram descartadas, diz ministro do Trabalho

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Brasília (DF), 31-05-2023 - O Advogado-Geral da União, Jorge Rodrigo Messias, a Procuradora-Geral da Fazenda Nacional, Anelize Lenzi, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o Ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, participam da abertura do 7º Congresso Anual do Contencioso Tributário da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS),
Foto Valter Campanato/Agência Brasil.

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), confirmou que o governo busca reduzir as taxas cobradas por empresas intermediárias nos pagamentos de vales-alimentação e refeição. Contudo, negou a publicação iminente de um decreto sobre o tema em 1º de maio e garantiu que não serão adotadas medidas abruptas. Durante participação no programa Bom Dia Ministro, ele afirmou que propostas radicais, capazes de “praticamente destruir o programa”, foram debatidas e rejeitadas.

Outro ponto em discussão é o prazo para transferência de recursos das operadoras aos restaurantes. Marinho destacou que contratos do setor público (como prefeituras e governos estaduais) estabelecem pagamentos em até 30 dias, prazo mais longo que o do setor privado. O ajuste nesse período, segundo ele, é necessário para agilizar os repasses. As negociações continuam, e as decisões finais devem ser anunciadas ainda em maio.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), também falou sobre o tema. Segundo ele, as mudanças estão na Casa Civil, aguardando a data de apresentação a ser estabelecida pelo presidente Lula (PT). Porém, as diretrizes já foram estabelecidas pela Fazenda e pelo Trabalho, tratando da interoperabilidade e da portabilidade de benefícios.

PAT, vale-refeição e vale-alimentação

O Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) foi criado para beneficiar principalmente trabalhadores de baixa renda. Nele, empresas intermediárias emitem um crédito virtual usado para pagar refeições: os conhecidos vale-refeição e vale-alimentação. Os valores oferecidos pelos empregadores cadastrados no PAT não sofrem incidência de FGTS ou contribuição previdenciária. Além disso, empresas que optam pelo cálculo de impostos com base no lucro real podem deduzir parte dos gastos com o programa do Imposto de Renda.

Vale destacar que qualquer empregador pode oferecer auxílio-alimentação, conforme a CLT, desde que o benefício não seja pago em dinheiro. Nesses casos, o valor não integra o salário do funcionário, mesmo que a empresa não participe do PAT.

A proposta de eliminar a intermediação das operadoras partiu de entidades do setor de supermercados, que criticam os custos elevados. De acordo com a ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados), a mudança geraria economia anual de R$ 10 bilhões para o segmento, com possível redução no preço dos produtos.

Brasil denuncia bloqueio de ajuda humanitária por Israel à Corte Internacional

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São Paulo SP 15/11/2023 Avião da FAB , Embraer VC-2, chega a São Paulo com 26 brasileiros resgatados da Faixa de Gaza, Palestina.
Foto Paulo Pinto/Agência Brasil

O Brasil solicitou nesta terça-feira (29) à Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, que declare ilegal o bloqueio imposto por Israel à entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, que já dura mais de 50 dias. A petição foi apresentada pelo embaixador Marcelo Viegas durante audiência pública da Corte, convocada a pedido da Assembleia Geral da ONU para analisar as obrigações de Israel em garantir suprimentos essenciais à população da Palestina.

Segundo o diplomata, as ações sistemáticas de Israel violam o direito à autodeterminação do povo palestino e outras normas do direito internacional. Ele destacou que impedir a atuação da ONU e de organizações humanitárias nos territórios ocupados representa grave violação legal, além de agravar a crise humanitária que atinge mais de 2 milhões de pessoas em Gaza.

“Como potência ocupante [dos territórios da Palestina] e como membro das Nações Unidas, Israel é obrigado a facilitar e viabilizar as operações da ONU nos territórios palestinos ocupados. Não pode interferir ou obstruir o exercício deste mandato, que foi estabelecido pela Assembleia Geral”, justificou o embaixador.

Bloqueio humanitário é foco de ação consultiva internacional

O processo em andamento na CIJ não tem caráter vinculante, mas carrega forte peso político. A ação, promovida pela Assembleia Geral da ONU, busca emitir um parecer jurídico sobre a legalidade das ações de Israel. O Brasil defende que, como potência ocupante e membro da ONU, Israel está legalmente obrigado a facilitar operações humanitárias nos territórios palestinos.

O embaixador brasileiro também criticou a proibição imposta por Israel às atividades da UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos. Segundo ele, a UNRWA é fundamental para a sobrevivência de milhões de pessoas, oferecendo educação, saúde e assistência emergencial.

Israel rejeita processo e acusa ONU de perseguição

Israel decidiu não participar das audiências na CIJ, alegando que o tribunal “atua com viés político” contra o país. O ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Sa’ar, acusou a ONU de “tentar deslegitimar” Israel, e declarou que a UNRWA seria “infestada de terroristas”, alegando ligação com o Hamas — acusações que Tel Aviv até o momento não comprovou, mesmo após diversas solicitações de investigação internacional.

O governo do premiê Benjamin Netanyahu também condiciona a entrada de ajuda humanitária em Gaza à rendição total do Hamas e à libertação de todos os reféns capturados em 7 de outubro de 2023, quando o grupo atacou cidades do sul de Israel.

Apoio internacional ao fim do bloqueio

Além do Brasil, Chile, Colômbia e Bolívia também se pronunciaram na audiência contra o bloqueio israelense. Países como Bélgica, Arábia Saudita, Argélia e África do Sul reforçaram que Israel tem obrigações legais de garantir o acesso à ajuda humanitária em Gaza. Ao todo, 44 países e quatro organizações internacionais devem se manifestar até o fim das audiências, em 2 de maio.

Para o governo brasileiro e outras nações, a postura israelense não apenas agrava o sofrimento da população civil, como viola tratados internacionais fundamentais, incluindo o direito humanitário. A disputa jurídica evidencia um crescente isolamento internacional de Israel diante da situação humanitária em Gaza.

A Faixa de Gaza é um dos dois territórios restantes da Palestina, juntamente com a Cisjordânia. Israel controla todos os acessos do povo palestino às regiões, frequentemente culminando em violência.

Análise: Fraude no INSS representa alto risco para o governo

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Aplicativo Meu INSS
Foto: Divulgação

O governo Lula já vinha com problemas – além de enfrentar dificuldade em manter coesa sua base no Congresso Nacional, tem sofrido com a baixa popularidade. Agora, foi atingido por um escândalo de grande apelo popular. A Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF), revelou um esquema de cobranças irregulares nos benefícios de aposentados e pensionistas do INSS que pode ter movimentado, entre 2019 e 2024, até R$ 6,3 bilhões. A dimensão da fraude e seu impacto direto em uma parcela vulnerável da população, como idosos e deficientes, têm forte potencial de danos à imagem do governo.

A fraude se apoiava em convênios com entidades que ofereciam benefícios aos segurados, mas que operavam com autorizações falsificadas. O esquema, segundo a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU), teria começado em 2016, se intensificado em 2019 e ganhado força em 2022, com uma normativa que facilitou esses convênios.

A resposta foi rápida, mas pode não ser suficiente para estancar a crise. O governo exonerou o presidente do INSS e prometeu ressarcir os segurados. No entanto, o processo de devolução deve ser lento e pode depender de levantamento individualizado, espaço fiscal e eventual recuperação dos valores. Um grupo de trabalho será criado, mas ainda sem prazo definido.

O Planalto tenta sustentar a narrativa de que a descoberta da fraude é mérito do próprio governo. Contudo, a inércia diante do aumento das reclamações não atendidas dos atingidos entre 2023 e 2024 – já na gestão Lula – fragiliza essa versão. O posicionamento do ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT), padrinho político do presidente do INSS demitido, também levanta dúvidas sobre o compromisso real com a investigação. Sua posição constrange o governo, mas sua saída poderia tensionar a aliança com o PDT em meio à crise de governabilidade.

Uma audiência pública com o ministro na próxima semana e a tramitação da medida provisória do consignado no setor privado devem manter o tema em evidência. Além disso, a oposição se mobiliza para instalar uma CPI e capitalizar sobre a crise. A coleta de assinaturas deve ser impulsionada pela reorganização da oposição promovida em torno do PL da Anistia.

A fragilidade social das vítimas e a simplicidade da narrativa – o Estado aparelhado para aplicar golpes em aposentados – alimentam a indignação pública. A percepção da população é de que a máquina estatal foi, ao menos, permissiva. O questionamento que permanece é se Lula e seus auxiliares vão minimizar o caso ou se têm consciência do potencial de danos, o que é essencial para que seja dada uma resposta à altura do problema.

Governo Central tem superávit em março e fecha trimestre com melhor resultado desde 1997

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Moeda Nacional, Real, Dinheiro, notas de real, fiscal, despesas
Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil

As contas públicas do Governo Central — que incluem o Tesouro Nacional, a Previdência Social e o Banco Central — registraram um superávit primário de R$ 1,096 bilhão em março de 2025, revertendo o déficit de R$ 1,024 bilhão observado no mesmo mês do ano passado. Este foi o melhor resultado para o mês desde 2021, surpreendendo o mercado financeiro, que esperava déficit de R$ 3,5 bilhões, segundo o Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda.

No acumulado do primeiro trimestre, o superávit primário soma R$ 54,532 bilhões, o maior da série histórica iniciada em 1997. Em igual período de 2024, o resultado havia sido positivo em R$ 20,171 bilhões.

O superávit primário corresponde à diferença entre receitas e despesas, excluindo o pagamento dos juros da dívida pública. A meta do governo para 2025 é de déficit primário zero, com margem de tolerância de até 0,25 ponto percentual do PIB — ou seja, um limite de R$ 30,97 bilhões negativos. O Orçamento oficial prevê déficit de R$ 29,6 bilhões, mas superávit de R$ 14,5 bilhões quando considerados apenas os gastos dentro do novo arcabouço fiscal, que exclui R$ 44,1 bilhões em precatórios.

Receita em alta, despesa sob controle

O bom desempenho fiscal se deve, em grande parte, à alta de 6,3% nas receitas líquidas nominais em março (0,8% acima da inflação). As receitas administradas pela Receita Federal, principalmente Imposto de Renda e Imposto de Importação, cresceram 5,6% acima da inflação. Este aumento foi impulsionado pela valorização do dólar e pelo maior lucro de empresas, especialmente do setor financeiro.

Por outro lado, as receitas não administradas caíram 12,5% em termos reais, devido à queda nos dividendos de estatais e à ausência de repasses de depósitos judiciais observados em março de 2024.

Do lado das despesas, o principal fator de contenção foi o adiamento do pagamento de precatórios, estimado em R$ 70 bilhões para julho, conforme acordo com o Banco Central. Também houve atraso no reajuste salarial do funcionalismo público e restrição de R$ 128,4 bilhões na execução orçamentária até maio, decorrente da demora na aprovação do Orçamento.

Mesmo com o aumento real de 1,6% nos gastos da Previdência e de 9,8% no BPC, as despesas discricionárias caíram 22,9% em março, em comparação com o mesmo mês de 2024. Os gastos com o Bolsa Família diminuíram R$ 1 bilhão, e os de saúde, R$ 1,2 bilhão, ambos impactados por reavaliações e atrasos.

Reforma do setor elétrico enfrenta resistência e pode ser fatiada no Congresso

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Linha de transmissão de energia na Usina Hidrelétrica (UHE) Belo Monte, localizada no Rio Xingu, no Pará. Reforma do setor elétrico. Usina hidrelétrica
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil.

Deputados ligados à pauta energética no Congresso veem com ceticismo a possibilidade de o projeto da reforma do setor elétrico avançar no Legislativo. O entendimento é que uma reforma ampla, independentemente do conteúdo, chega já com alguma dificuldade, já que mobiliza fortemente a atuação de diversos subsetores, como geradoras (renováveis e não renováveis), distribuidoras e grandes consumidores.

Deputados ouvidos pela Arko Advice lembram do PL 414/2021, travado desde 2023. Uma comissão especial chegou a ser criada, mas a proposta de reforma não avançou. Os parlamentares defendem que a estratégia mais eficaz seria fatiar a reforma para tratar separadamente de cada um dos problemas listados como justificativa da reforma. Além disso, há questionamentos dos setores sobre a redução de benefícios para a autoprodução, que desagrada os grandes consumidores industriais.

No Congresso, a demora no envio do projeto oficial pelo governo aos parlamentares é interpretado também como sinal de uma dificuldade interna dentro do Executivo. O texto, enviado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), ficou preso na Casa Civil. Esse desentendimento também mostra que não haverá total empenho na articulação.

O que diz o projeto de Silveira

Ainda que o projeto não tenha sido oficialmente apresentado pelo governo ao Congresso, Silveira apresentou uma minuta da reforma do setor elétrico no início deste mês ao setor privado e à imprensa. A ideia é expandir a isenção de tarifa de energia para as famílias mais pobres, isentando todo o consumo inferior a 80 kWh/mês. Segundo o MME, serão beneficiadas famílias com renda mensal de até meio salário mínimo incluídas no CadÚnico, além de pessoas com deficiência e idosos do BPC.

Em contrapartida, o governo quer cortar benefícios concedidos aos autoprodutores de energia – aqueles que tem participação em empreendimentos de geração e por isso tem isenção de encargos setoriais. Para reduzir o impacto dessa modalidade, o governo propõe limitar os benefícios para consumidores com participações equivalentes à produção mínima de 30.000 kW e a 30% do capital social total do projeto de geração.

Para o governo, a alteração irá restabelecer os objetivos originais da autoprodução e promover a distribuição mais justa de encargos. Isso porque a existência do benefício teria se tornado uma forma de contornar facilmente os pagamentos, segundo o governo.