A crise do INSS deixa o governo Lula desconfortável em um ano pré-eleitoral. O impacto do tema sobre a popularidade do governo ainda não foi captado nas pesquisas publicadas na última semana, que refletiram uma trajetória de leve melhora no último mês. A Arko, porém, teve acesso a dados de pesquisas em tempo real (tracking) que já antecipam um movimento brusco, com a desaprovação do governo voltando a ultrapassar a aprovação. Essa queda de popularidade, caso seja duradoura, coloca o governo Lula em posição semelhante à vivida em 2005, quando o escândalo do mensalão veio à tona e gerou um forte impacto sobre a opinião pública, abrindo um período de grande sensibilidade do eleitorado a temas envolvendo corrupção. Naquele ano, após o esquema ganhar a mídia, a aprovação (“bom” e “ótimo”), que era de 45%, entrou em queda livre, atingindo 28% em agosto, segundo o Datafolha.
Já no pós-mensalão, o governo conseguiu reverter essa trajetória. Lula terminou o mandato com aprovação recorde e, como sabemos, foi reeleito. Vinte anos depois, o governo Lula 3 será capaz de fazer movimento semelhante? Acreditamos que o cenário político em 2025 é bastante diferente daquele de 2005 e que alguns elementos podem dificultar a recuperação da popularidade.
Polarização acentuada
A cristalização do antipetismo como ideologia política no Brasil no período Dilma Rousseff tornou a polarização um elemento preponderante na política brasileira. Assim, em 2005 Lula tinha menos barreiras para recuperar sua popularidade. Vale pontuar que, desde a eleição de Dilma para o segundo mandato, iniciado em 2015, as eleições estão sendo decididas por margens cada vez menores. O pleito de 2022 foi o mais acirrado da História, com apenas 2,1 milhões de votos de diferença entre os dois candidatos no segundo turno. A diferença é menor do que o total de votos nulos e brancos registrados.
Menor impacto da taxa de emprego na avaliação do governo
Um dos fatos comumente apontados como mais relevantes para a aprovação dos governos é o nível do desemprego. Seguindo esse pensamento, Lula deveria ter ótimas taxas de aprovação, já que tem batido recordes de empregabilidade. Atualmente, porém, esse fator parece estar sendo menos relevante para a aprovação do que a inflação, que tem gerado grande dificuldade entre o eleitorado mais carente.
A natureza do escândalo pode importar
A crise do INSS é diferente da crise do mensalão. De acordo com relatório da Polícia Federal divulgado em 2012, as “mesadas” para compra de apoio parlamentar no Lula 1 teriam custado aos cofres públicos algo em torno de R$ 101 milhões (ou R$ 364 milhões, com a correção inflacionária, contando a data da divulgação do escândalo como base). Já a fraude do INSS pode passar dos bilhões de reais em valores desviados. Além disso, enquanto o mensalão causou danos ao contribuinte de forma indireta (mau uso dos recursos públicos), a fraude do INSS retirou dinheiro diretamente do bolso do cidadão. Assim, o impacto midiático e, portanto, na popularidade pode ser diferente.
Munição limitada
Em 2005, Lula tinha a seu favor a novidade do Bolsa Família, que ainda estava em fase de estruturação e de crescimento no número de beneficiários. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, em janeiro de 2005, 6,5 milhões de famílias recebiam o Bolsa Família, valor que saltou para 11 milhões até junho de 2006, quando o número de beneficiários estabilizou. Um trunfo desse gênero pode ser difícil de exibir este ano. Ainda assim, há algumas cartas na manga que o governo pode utilizar.
Estratégias que podem ser usadas
O projeto que pretende elevar a faixa de isenção do Imposto de Renda para R$ 5 mil deve ser uma das cartas utilizadas pelo Planalto para impulsionar a avaliação positiva do governo. Os próximos meses serão de negociação em torno desse projeto de reforma da renda, e o empenho deverá ser intenso, já que a oposição deve promover obstrução de pauta em prol da anistia e utilizar uma futura CPMI para desgastar o governo. Logo, esses temas podem desacelerar e sobrepor a discussão do projeto.
Pé de meia: A política de remuneração de estudantes de escola pública para evitar a evasão pode ser um outro caminho para o governo. A política pública pode se converter em um eleitorado jovem que usufrui do programa, e surtir efeito já em 2026. Entretanto, o governo tem a missão de promover ajustes orçamentários para conseguir cumprir a obrigação neste exercício, já que o orçamento 2025 prevê apenas R$ 1 bilhão em recursos, enquanto a projeção é que o custo total seja de R$ 13 bilhões.
Fim da jornada 6×1: Outra pauta que o governo deve abraçar é a redução da jornada de trabalho 6×1, hoje permitida pela CLT. O tema teve adesão popular ao ser sugerido por parlamentares de esquerda, e o governo sofreu críticas ao não defender a discussão. Entretanto, após a operação contra as fraudes no INSS e a popularidade em queda livre, o presidente Lula (PT) fez um pronunciamento em rede nacional no 1º de maio apoiando o debate. O governo embarca, contudo, em um tema espinhoso, já que tem muita resistência dentro do Parlamento, principalmente pelo impacto econômico da medida.