A imprensa internacional acompanha de perto os interrogatórios no Supremo Tribunal Federal (STF) dos réus acusados de tentativa de golpe de Estado, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O britânico The Guardian deu destaque ao julgamento, afirmando que o STF busca “desvendar o que a Polícia Federal alega ter sido um plano de três anos para vandalizar uma das maiores democracias do mundo”.
O jornal ressaltou ainda que há “amplo consenso entre especialistas” de que Bolsonaro será condenado ainda este ano, mas levantou dúvidas sobre o cumprimento efetivo de uma eventual pena.
O Washington Post, por sua vez, enfatizou que Bolsonaro negou ter participado de qualquer plano para reverter o resultado das eleições de 2022, vencidas por Lula (PT), e descreveu o ex-presidente como um “ex-militar conhecido por expressar nostalgia pela ditadura”. O jornal também destacou o tom ameno do depoimento de Bolsonaro, que chamou de “malucos” os manifestantes que pediam intervenção militar após as eleições, e que pediu desculpas ao ministro Alexandre de Moraes por acusações infundadas.
Ao redor do mundo
O espanhol El País e o britânico Financial Times também noticiaram o julgamento, ressaltando o ineditismo de oficiais de alta patente enfrentando acusações de tentativa de golpe no Brasil, país que viveu uma ditadura militar entre 1964 e 1985. O argentino Clarín repercutiu o depoimento do ex-ministro Anderson Torres, destacando que ele admitiu que propostas de golpe eram “recorrentes” e complicavam a situação de Bolsonaro.
A Al Jazeera classificou o julgamento como “histórico”, destacando que é a primeira vez na história brasileira que um ex-chefe de Estado é julgado por tentar derrubar um governo eleito. A rádio pública estadunidense NPR também pontuou que é um momento histórico, ressaltando o papel central do ministro Alexandre de Moraes, descrito como uma figura polarizadora, alvo de críticas de Bolsonaro, Elon Musk e Donald Trump devido ao seu combate à desinformação e alegações de censura.
O português Público informou que Bolsonaro continuou a espalhar “dúvidas infundadas” sobre as urnas eletrônicas, e que admitiu procurar alternativas “dentro da Constituição” em conversas “informais”.
Na Ásia, o Japan Times recordou que o ex-presidente se preparou para o interrogatório no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, a convite do governador e apoiador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O Times of India pontuou em sua manchete que Bolsonaro buscou alternativas para se manter no poder.
Julgamento é visto como divisor de águas para a democracia
Análises internacionais apontam que o julgamento é visto como divisor de águas para a democracia brasileira, submetendo pela primeira vez pessoas acusadas de tentativa de golpe a um processo criminal, pontuando também a presença de militares entre os réus.
Especialistas citados pela imprensa estrangeira avaliam que, mesmo com a estratégia de Bolsonaro de negar qualquer plano golpista, e alegar discussões “dentro das quatro linhas” da Constituição, o caso representa um teste inédito para as instituições brasileiras.