A análise da segmentação das pesquisas Ipsos/Ipec e Datafolha por renda e região mostra um cenário desfavorável para a gestão Lula 3 no que diz respeito à avaliação do governo. Neste momento, a avaliação negativa (ruim/péssimo) supera a positiva (ótimo/bom) em três das quatro faixas de renda. Mesmo na faixa de renda de até dois salários mínimos (SM), que majoritariamente é integrada pela base social lulista, temos um quadro de igualdade entre as avaliações positiva e negativa.
Na pesquisa Ipsos/Ipec, a avaliação negativa nas faixas de renda de mais de 1 a 2 SM, mais de 2 a 5 SM e mais de 5 SM supera a positiva com folgada margem. É possível constatar um forte desgaste do presidente Lula (PT) na classe média. Nos segmentos de maior renda, a insatisfação com o presidente permanece, o que não é novidade. Entretanto, diferentemente do que ocorria até o fim do ano passado, Lula não tem conseguido manter seu prestígio entre o eleitorado de menor renda.
Cenário similar é observado na pesquisa Datafolha. No segmento com renda mensal de até 2 SM, temos um quadro de igualdade entre as avaliações positiva e negativa em função da margem de erro, que é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Na faixa de renda de 2 a 5 SM, na faixa de mais de 5 a 10 SM e na faixa de mais de 10 SM, a avaliação negativa de Lula é muito superior à positiva.
Nos levantamentos do Ipsos/Ipec e do Datafolha, notamos que a avaliação negativa na classe média está hoje mais alinhada com os segmentos de maior renda. Observamos que os brasileiros de renda mais elevada e de classe média apresentam um comportamento mais próximo da avaliação do governo no país.
É possível constatar uma forte resistência ao presidente Lula na classe média. Na faixa de renda de mais de 2 a 5 SM no Ipsos/Ipec, e nas faixas de renda de 2 a 5 SM e de mais de 5 a 10 SM no Datafolha, a diferença entre as avaliações negativa e positiva de Lula gira em torno de 30 pontos percentuais, ou seja, a distância é muito significativa.
De acordo com o Datafolha, a avaliação negativa do governo também supera a positiva em três das quatro regiões do país: Sudeste (45% a 25%); Sul (49% a 22%); e Centro-Oeste/Norte (41% a 25%). A avaliação positiva está na frente da negativa apenas no Nordeste: 37% a 27%.
Cenário semelhante é observado no levantamento do Ipsos/Ipec. A avaliação negativa supera a positiva no Sudeste (47% a 23%), no Sul (48% a 19%) e no Centro-Oeste/Norte (50% a 20%). No Nordeste, a avaliação positiva prevalece sobre a negativa: 38% a 29%.
Conforme podemos observar na segmentação da avaliação do governo por regiões, o prestígio de Lula no Nordeste não é capaz, por exemplo, de compensar a fragilidade do presidente no Sudeste, a maior região do país. No Datafolha, a distância entre as avaliações negativa e positiva no Sudeste é de 20 pontos percentuais. No Ipsos/Ipec, a distância é de 24 pontos. No Nordeste, segundo o Datafolha, a avaliação positiva é apenas 10 pontos maior que a negativa. No Ipsos/Ipec, o saldo a favor da avaliação positiva é de 9 pontos.
Diante da desaprovação estrutural observada na opinião pública, Lula emite sinais de que buscará enfrentar a conjuntura adversa tendo como foco os segmentos de maior renda, que ainda podem ser recuperados. Além do expansionismo fiscal, a narrativa messiânica do presidente foi retomada. Na última quinta-feira (12), durante um ato do governo em Minas Gerais, Lula sinalizou para esse eleitorado ao afirmar: “Duvido que tenha um presidente que tenha feito metade do que eu fiz. Sou um cara agradecido a Deus. Um cara filho da dona Lindu virar presidente só pode ser milagre. Uma, duas, três vezes e, se duvidar, a quarta vez. Se preparem, este país não vai cair na mão da extrema direita.”
Mesmo que Lula tenha prestígio nos segmentos de menor renda, a conjuntura de 2025 é distinta da de seus mandatos anteriores. Além de o complexo cenário internacional impedir que o país repita a bonança econômica do período 2003-2010, a inflação pressiona a renda dos mais pobres, que demandam respostas que o governo ainda não encontrou. Por isso Lula tem se deparado com limites em ser popular reproduzindo a agenda lulista da década passada.