Enquanto a direita precisa peneirar diversos pré-candidatos para definir quem vai disputar a Presidência em 2026, a esquerda vive uma realidade oposta: o único nome colocado no páreo até agora é o do presidente Lula (PT). Isso pode ser visto na perspectiva de uma busca de unidade em um campo político que receia que uma divisão leve à derrota, mas também pelo viés da falta de lideranças populares de esquerda com o potencial de Lula de reunir votos.
Dentro do PT, principal partido da esquerda brasileira, há unanimidade: parlamentares e ministros ouvidos pela Arko Advice deixam claro que, se a eleição fosse hoje, o candidato seria Lula, desde que sua saúde permitisse. O presidente é visto como o maior beneficiário dos votos leais ao PT e dos votos antibolsonaristas, mas fato é que ele é, antes de tudo, detentor de uma parcela própria de eleitores – o lulismo.
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Pesquisa do Datafolha realizada no início de abril mostra Lula como o candidato mais bem posicionado, com cerca de 35% das intenções de voto. Ele lidera em todos os cenários de primeiro turno em que é incluído e ainda nos confrontos de segundo turno testados contra adversários diversos. Também é o mais lembrado na menção espontânea de intenção de voto (20%). O levantamento abrange simulações com Fernando Haddad (PT), atual ministro da Fazenda, como alternativa a Lula. Nessas situações, Haddad apresenta índices que variam de 15% a 17% das intenções de voto, a depender dos nomes dos adversários testados.
A tendência é antiga. Desde a primeira vez que o partido pisou no Palácio do Planalto, em 2003, o sucesso eleitoral do PT tem sido sustentado pelo carisma de Lula – o lulismo sempre foi mais forte do que o próprio petismo. O lulismo, por sua vez, é sustentado pela memória da criação dos programas sociais nos governos Lula 1 e 2, memória que, naturalmente, vai esmaecendo à medida que a população normaliza a existência desses benefícios. Para aliados, sem o elemento do lulismo há o risco de o antipetismo ganhar as eleições.
Tal movimento dificulta ao partido formar lideranças fortes e independentes, desvinculadas da imagem de Lula. E isso se reflete na hora da escolha de um sucessor ao cargo de presidente da República que seja capaz de construir um estilo próprio e sólido. Ao analisarmos a história, percebemos que todos os indicados por Lula surgiram em contextos em que ele estava impedido de concorrer. Foi assim com Dilma Rousseff em 2010, escolhida por Lula após ele cumprir dois mandatos, e também com Haddad em 2018, quando Lula estava inelegível devido às investigações da Lava Jato (aliás, Haddad é considerado por muitos seu sucessor para 2026). Essas escolhas não são feitas pelo partido como um coletivo, mas por uma liderança específica.
Mudanças na lei enfraqueceram a esquerda
O cenário se deve, em grande parte, à falha do PT em formar lideranças carismáticas que possam ocupar o lugar de Lula. Não é para menos. As bases sociais da esquerda foram abaladas por mudanças institucionais recentes. Com a reforma trabalhista do governo Temer, que acabou com a cobrança sindical, o movimento organizado de trabalhadores, elemento de mobilização social que levou Lula à Presidência, enfraqueceu, junto com as lideranças já existentes. Além disso, o sindicalismo também perdeu força como mecanismo de formação de novos políticos.
Há, ainda, o desafio imposto por mudanças na própria formação do mercado de trabalho brasileiro e pelas novas aspirações do trabalhador, o que tem sido pouco compreendido pela esquerda, como a falha na tentativa de regulamentar o trabalho por aplicativos mostrou. Se, no caso de ser eleito para um quarto mandato, Lula não dirigir suas forças para a formação de novas lideranças, a esquerda brasileira poderá passar um período relegada ao segundo plano.
Nomes fora do PT
A falta de renovação política não é um problema somente do PT. Com poucas exceções, os principais nomes da esquerda atual são os mesmos de décadas atrás. Nomes que ganharam destaque recentemente – como o do prefeito de Recife, João Campos (PSB), cotado para governador – e que navegam bem na realidade digital podem surgir como promessas, mas não para um futuro imediato, já que esbarra na idade mínima para ser candidato à Presidência. O PSOL, mais à esquerda do que o PT, teve crescimento, contudo falta muito para se posicionar com força equiparável à do PT, conforme revelou a disputa de Guilherme Boulos pela prefeitura de São Paulo em 2024.
A citada pesquisa Datafolha trouxe um dado, porém, que pode devolver uma peça ao xadrez político: em cenários que não contam com a presença de Lula entre os possíveis candidatos, Ciro Gomes (PDT) surge com um percentual de intenção de voto superior ao de Haddad. Nessas projeções sem Lula, Ciro obtém entre 19% e 20%, enquanto Haddad fica com 15% a 17%. Ainda que a ideia de alçar o ex-governador do Ceará novamente como candidato já circule entre membros do partido, ele tem afirmado que não pretende disputar nova eleição.