Após indígenas Munduruku bloquearem a entrada da COP30 na sexta-feira, o governo federal anunciou que vai consultar os povos do Rio Tapajós sobre o projeto de hidrovia na região. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, comunicou a decisão durante o encerramento da Cúpula dos Povos, neste domingo (16).
“Temos o compromisso de realizar uma consulta livre, prévia e informada a todos os povos da região antes de implementar qualquer projeto no rio”, destacou.
Além disso, Boulos informou que conversou por telefone sobre o tema com o presidente Lula (PT) e com o ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), pouco antes de chegar ao encerramento da Cúpula.
Protesto
Na manhã de sexta-feira, os Munduruku bloquearam a entrada da Zona Azul. Essa área é destinada a credenciados da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).
Com o apoio de ativistas e povos indígenas de outros países, os Munduruku exigiam uma reunião com o presidente Lula e a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que prevê a privatização de empreendimentos públicos federais no setor hidroviário dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós.
Além disso, eles criticam a construção da Ferrogrão, ferrovia que ligará o Mato Grosso ao Pará para escoamento da produção agrícola. Segundo os indígenas, o projeto ameaça o modo de vida das comunidades e aumenta a pressão sobre suas terras.
Carta final da cúpula
Neste domingo, foi divulgada a carta final da Cúpula dos Povos, que critica o que os participantes classificaram como “falsas soluções” para enfrentar a emergência climática.
De acordo com o documento, o modo de produção capitalista é a principal causa da crise climática crescente e impacta principalmente as comunidades periféricas, que sofrem mais com eventos climáticos extremos e o racismo ambiental.
Além disso, a carta aponta que empresas transnacionais — incluindo indústrias de mineração, energia, armas, agronegócio e Big Techs — são as principais responsáveis pela catástrofe climática.
O texto também apresenta uma série de reivindicações, como:
- demarcação de terras indígenas e de outros povos;
- reforma agrária e fomento à agroecologia;
- fim do uso de combustíveis fósseis;
- financiamento público para uma transição justa, com taxação das corporações, do agronegócio e dos mais ricos;
- fim das guerras e maior participação dos povos nas decisões.
Cúpula dos Povos
A Cúpula dos Povos reuniu cerca de 70 mil pessoas e se consolidou como o maior espaço de participação social da conferência climática. O evento começou na última quarta-feira (12), em paralelo à COP30, e, desde o início, criticou a ausência de maior participação popular na conferência oficial.
Além disso, para as cerca de 1,3 mil organizações e movimentos que participaram da cúpula, os países e tomadores de decisão — especialmente os dos países ricos — têm se omitido ou, consequentemente, apresentado soluções ineficientes, colocando em risco a meta de 1,5°C estabelecida pelo Acordo de Paris.
Por fim, após cinco dias de debates, mobilizações e manifestações em Belém, a Cúpula encerrou com um “banquetaço” na Praça da República, no centro da capital paraense. Durante o evento, houve distribuição de comida pelas cozinhas comunitárias e também uma celebração cultural aberta ao público.

