A Procuradoria-Geral da República (PGR) revelou, em denúncia apresentada nesta quarta-feira (19), que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) foi instrumentalizada em um plano para beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2022.
De acordo com a denúncia, a PRF, sob o comando do então diretor-geral Silvinei Vasques, realizou blitz em cidades onde Lula (PT) teve votação expressiva, principalmente no Nordeste, para dificultar o deslocamento de eleitores no dia do pleito.
“A ferramenta [as blitz] figurava como elemento crucial na execução do plano de manutenção de Jair Bolsonaro no poder”, afirma a PGR no documento.
Blitz em áreas pró-Lula e desrespeito ao STF
A PGR destaca que as operações policiais foram executadas em desacato a uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia proibido abordagens que pudessem dificultar o trânsito de eleitores no dia da votação.
Na véspera do segundo turno, Alexandre de Moraes determinou a suspensão das blitz após denúncias de que a PRF poderia estar atuando para prejudicar eleitores de Lula. Mesmo assim, as operações foram mantidas.
Naquele dia, Silvinei Vasques foi convocado a prestar esclarecimentos ao ministro, sob risco de prisão em flagrante por desobediência. Em agosto de 2023, ele foi preso preventivamente a pedido da Polícia Federal (PF), mas foi solto um ano depois.
Mapeamento de cidades pró-Lula partiu do Ministério da Justiça
Segundo a denúncia, o plano contou com o envolvimento de autoridades do Ministério da Justiça. A então diretora de Inteligência do ministério, a delegada Marília Ferreira de Alencar, solicitou um mapeamento das áreas onde Lula teve mais de 75% dos votos no primeiro turno.
O analista de inteligência encarregado da coleta de dados, Clebson Vieira, afirmou em depoimento que percebeu que as blitz foram executadas com base no levantamento que ele mesmo produziu.
“O declarante somente percebeu uma atuação da PRF nos locais onde o então candidato Lula vencia, não o tendo percebido nos locais onde o então candidato Bolsonaro vencia”, relatou Clebson, acrescentando que ficou incomodado com a situação, mas que não tinha a quem recorrer.
As investigações anexaram à denúncia uma planilha contendo a listagem das cidades-alvo, com uma aba destacando os locais onde Lula teve mais de 75% dos votos.
Mensagens reforçam a articulação política na PRF
A PGR também apresentou mensagens trocadas entre Marília Ferreira de Alencar e Fernando de Sousa Oliveira, então diretor de Operações do Ministério da Justiça, reforçando a intenção de usar a estrutura do Estado para influenciar as eleições.
Em uma mensagem enviada após o primeiro turno, Marília afirmou:
“Temos que pensar na ofensiva quanto a essas pesquisas.”
A declaração sugere uma estratégia coordenada para dificultar a votação em áreas favoráveis a Lula e, assim, tentar reverter o favoritismo do petista no segundo turno.
Próximos passos
Se aceito pelo STF, caso será analisado pela Primeira Turma do tribunal, formada pelos ministros Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia, Luiz Fux, Flávio Dino e Cristiano Zanin. A expectativa é de que o julgamento seja concluído até dezembro.

