Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente Donald Trump chamou Lula (PT) de “boa pessoa” e disse estar disposto a conversar. Foi curto, quase banal, mas não por acaso. Cada palavra de Trump é sinal estratégico. Desta vez, abriu uma nova avenida especulativa entre Washington e Brasília. Entretanto, apesar da sinalização de um desfecho positivo, algumas variáveis devem influenciar o resultado desta conversa.
O presidente da Arko Internacional, Thiago de Aragão, analisou quais possíveis caminhos para negociações e até o que pode fazer todo o acordo desandar.
Congelamento temporário das tarifas
O desfecho mais previsível no curto prazo seria um congelamento de 30 a 90 dias em algumas das tarifas já anunciadas. Trump poderia vender isso como gesto de boa vontade, enquanto Lula apresentaria como uma vitória para dar fôlego aos exportadores. Uma redução estrutural das tarifas continua improvável, mas uma pausa tática ajudaria a baixar a temperatura.
Gestos simbólicos
Washington poderia restaurar um número limitado de vistos que haviam sido cancelados. É um movimento de baixo custo político para Trump, mas de forte peso simbólico no Brasil. Para Lula, seria uma vitória rápida sem necessidade de grandes concessões.
Mecanismo de pré-conversa
Ambos os lados poderiam criar uma “conversa sobre conversas”: um canal formal sem compromissos imediatos, mas desenhado para preparar terreno para negociações futuras. Isso reduz o risco político e ao mesmo tempo sinaliza que há progresso.
Venezuela como moeda de troca
Trump deseja que o Brasil tenha papel ativo no cerco a Caracas. Lula só consideraria isso se viesse atrelado a flexibilizações comerciais ou algum alívio tarifário para setores exportadores estratégicos. Essa tensão pode virar o eixo central da negociação: pedidos geopolíticos dos EUA em troca de concessões econômicas para o Brasil.
Risco de um colapso nas conversas
A conversa pode simplesmente descarrilar. Se Trump exigir demais sem oferecer alívio tangível, Lula pode se afastar e usar o desgaste para fortalecer seu discurso contra pressões externas. O resultado seria paralisia, tarifas plenamente mantidas ou até ampliadas. Em vez de abertura, a tentativa de diálogo poderia cristalizar desconfiança e travar ainda mais a relação bilateral.
Não se deve esperar uma guinada histórica nem um acordo amplo. O que pode vir são congelamentos temporários, pequenos gestos como vistos e a criação de novos canais de diálogo. O tema da Venezuela pode virar o fiel da balança, capaz de destravar concessões ou implodir o processo. Se funcionar, Lula ganha margem de manobra. Se não, o encontro corre o risco de se tornar apenas mais uma cena no palco da ONU.

