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Menos acordos e mais objetividade: o “Consenso Moral Global” sempre foi e sempre será uma ilusão

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Opinião sobre o artigo “Global moral consensus is just wishful thinking” do The Guardian

Há alguns dias, o The Guardian publicou um artigo reunindo cartas que defendem a tese de que, após algumas décadas de sua nobre concepção, o “consenso moral global” não passa, hoje, de uma ilusão. Referem-se àquele anseio utópico da ONU, de ONGs “bem-intencionadas” e de burocratas entediados: sentar o mundo inteiro à mesma mesa, do Texas ao Talibã, para decidir em coro o que é “certo”.

Enquanto os correspondentes lamentam a hipocrisia do Ocidente, a truculência de tiranetes e a inutilidade do Tribunal Penal Internacional (que as grandes potências ignoram solenemente), a pergunta que paira é outra: por que insistimos tanto em buscar consensos morais universais num mundo onde mal conseguimos concordar, num grupo de condomínio, sobre se a piscina pode ou não ser usada por visitantes?

Segundo um dos autores das cartas: “tristemente, os únicos com força política e militar para levar criminosos de guerra à justiça, em nome da moralidade, são justamente os que estão perpetuando os crimes”. Cita Putin e Benjamin Netanyahu como exemplos.

A crença parece infantil: o mundo como sala de aula do ensino fundamental, onde todos partilham os mesmos valores impostos pela escola. Só faltaria, claro (!), que todos concordassem com tudo aquilo que, para eles, é “muito claro”.

O mito do consenso moral como virtude

A ideia de que precisamos de um grande pacto moral compartilhado para viver em sociedade é tão intuitiva quanto equivocada. Não existe consenso moral entre Xi Jinping e Javier Milei, entre um afegão e um canadense, ou entre Nova Déli e Oslo.

Cada um de nós já vive dentro de sua redoma ética, onde certos valores são tratados como verdades absolutas e qualquer dissonância é vista como ofensa pessoal. É como se habitássemos constituições morais paralelas, com leis que só valem para os convertidos.

Tentar unificar tudo isso num consenso global não é só ingenuidade: é imperialismo cultural com roupa de boa intenção — e um convite aberto à manipulação.

A solução retroativa dos autores? Apostar nos mesmos organismos internacionais e aparatos que já falharam.

Nesse cenário, a internet costuma ser acusada de sofisticar o isolamento — afinal, cada bolha ganhou newsletters, podcasts e emojis próprios. Mas talvez ela seja, na verdade, um canal de pacificação.

Chega de lamentar efeitos colaterais do progresso, como fizeram em vão os tecelões luditas do século XIX contra o tear mecânico. Fujamos do clichê de culpar redes sociais por “nos aprisionar em bolhas” quando, na verdade, elas apenas nos permitiram descobrir que não pensamos certas coisas sozinhos. Visionários não veem ameaças: enxergam, em cada inovação, um oceano de soluções para velhos dilemas.

Menos consenso, mais protocolo: estruturas que prosperam mesmo quando ninguém concorda com nada

Do ponto de vista daqueles que, cansados de congressos cafonas e gravatas, preferem codar utopias a redigir moções, o mundo não precisa de mais tratados morais escritos a 27 mãos em Genebra. Precisa de contratos claros, protocolos bem definidos e arquiteturas sociais que funcionem mesmo num ambiente moralmente fragmentado.

Nada de conselhos globais de ética, conferências de paz com hashtags ou resoluções que só servem para diplomata posar no LinkedIn. A resposta de quem entende a internet como ela realmente é — um campo vasto de oportunidades — é trocar tudo isso por blockchains, DAOs, contratos inteligentes, acordos P2P e sistemas que não dependam de confiança ou alinhamento moral para funcionar.

A passkey está aí: em vez de supor que as pessoas precisam se amar, partilhar valores ou aplaudir as mesmas causas para colaborar, as soluções tecnológicas mais recentes nos mostram o oposto. Ninguém precisa concordar com nada — desde que o protocolo funcione.

Se um grupo de vegetarianos anarco-pacifistas e outro de mineradores cripto-nômades conseguem transacionar entre si, cada qual em sua bolha moral, isso não é falência ética: é sucesso estrutural. É arquitetura robusta e governança antifrágil.

Não precisamos de consenso sobre os fins, apenas acordo mínimo sobre os meios. Protocolos claros, regras inquebrantáveis (matemáticas, não morais) e limites que ninguém possa driblar com retórica ou apelo emocional. Um contrato inteligente não entra em contradição performática nem precisa pedir desculpas no X (ou ex-Twitter, para quem ainda insiste no nome antigo).

Essa visão é revolucionária não porque promete um mundo mais justo — mas porque nos salva da ilusão de que justiça só existe quando todos concordam. E concordemos: esse dia nunca chegará.

Política Global P2P: quando o mundo parar de tentar se amar, talvez funcione melhor

O sonho de um “consenso moral global” é, como o próprio Guardian admite, puro wishful thinking. Mas, ao contrário dos autores, isso não deve causar desalento. Deve libertar.

Aceitar que não vamos concordar em tudo é o primeiro passo para criar sistemas que realmente funcionam. E a chave para isso está nas tábuas simples: mandamentos, constituições e contratos de código aos quais adere quem quer. Nada mais libertador do que saber onde termina a sua liberdade — e onde ninguém mais pode te tocar.

Menos valores universais, mais princípios claros. E, se possível, que caibam todos numa blockchain.

Autor

  • Sócio co-fundador da Arko Digital e da Nomos, braços de novos negócios e inovação do grupo Arko Advice, Felipe Dizioli Perez é formado em Desenho Industrial pela FAAP, com especializações na Itália e centenas de empresas atendidas ao longo da carreira.

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