O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano), voltou para a Casa Branca no início deste ano determinado a retomar a agenda protecionista do país. Uma das promessas de campanha foi acabar com a inflação, que registrou a maior alta dos últimos 40 anos no governo do ex-presidente Joe Biden (Democrata). No entanto, as recentes medidas adotadas por Trump indicam que os preços podem seguir outro rumo.
No início do mandato, Trump anunciou tarifas de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio do país. Após dois meses, definiu novas tarifas recíprocas de importação para vários países. A princípio, o objetivo era reduzir as importações e dinamizar a indústria de base interna. Porém, são necessários tempo e investimento para que o mercado interno se desenvolva a ponto de compensar parte das importações. Portanto, quem sofrerá os primeiros impactos das novas tarifas será o cidadão americano, que terá de arcar com o aumento dos preços dos produtos.
Governos anteriores mostram que a inflação afeta diretamente a popularidade dos líderes. Um dos motivos, por exemplo, que levaram à derrota de Biden nas eleições de 2024 foi a alta da inflação. Da mesma forma, no Brasil, o presidente Lula (PT) vivencia a pior desaprovação de seus três mandatos justamente por conta do aumento do preço dos alimentos.
Segundo monitoramento da Nate Silver, a desaprovação do presidente atingiu 48,1% e a aprovação 47,9%. Foi a pior desde o início do mandato. Além disso, a ata do Federal Reserve apontou que a inflação pode ser impulsionada pelas novas tarifas. O banco também elevou a projeção da inflação e apontou incertezas na economia.
Assim, na semana passada, milhões de americanos protestaram contra o governo Trump. Com o lema “Tire suas mãos” estampado nos cartazes, os participantes criticaram várias medidas do governo, incluindo o “tarifaço”. As taxas impactaram diretamente os fundos de aposentadoria e de pensão nos Estados Unidos, com perdas na Bolsa de Valores estimadas em mais de US$ 100 bilhões.
Para além da população civil, o setor privado também está descontente. Líderes empresários que apoiaram a campanha eleitoral de Trump condenaram as novas tarifas. Além disso, no mercado financeiro, as ações derreteram. A falta de previsibilidade nas decisões de Trump afasta investidores e novas injeções de recursos no país, já que não se sabe qual será o próximo anúncio.
Diante desse cenário, o posicionamento de Trump teve de mudar. Ele se surpreendeu com as consequências no mercado de ações, com as retaliações anunciadas pela China e com a possibilidade de outros países também responderem à altura. A opção por recuar e pausar o “tarifaço” por 90 dias, exceto para a China, indica que o presidente tentou, mas não resistiu, por ora, às pressões interna e externa.

