Faltando cerca de um ano e meio para a sucessão de 2026, governo e oposição têm desafios pela frente. O presidente Lula (PT), que deverá concorrer à reeleição, ainda busca construir uma marca para o seu terceiro governo. Desde o “cansaço” da narrativa sobre os atos de 8 de janeiro de 2023, o governo tem se limitado a “requentar” a agenda social dos governos Lula 1 e 2, mantendo o social como foco.
Com o Brasil mais complexo, o efeito político dos programas sociais não é igual ao da década passada. A mais recente pesquisa da Quaest (02/04) apontou que 67% dos brasileiros apontam algum impacto positivo dos programas sociais em seu cotidiano, considerando: Bolsa Família (20%); Isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil (10%); Farmácia Popular (9%); Minha Casa, Minha Vida (9%); Pé-de-Meia (7%); Saque aniversário do FGTS (4%); Desenrola (3%); Acredita (2%); Crédito do Trabalhador (2%); e Gás para Todos (1%). No entanto, 70% afirmam não ter medo de perder esses benefícios sociais, caso Lula deixe de ser presidente.
Esse recorte da Quaest pode indicar que não há mais uma associação automática entre benefícios sociais e crédito político a Lula. Vale recordar que nas eleições de 2006, 2010 e 2014 o PT utilizava com frequência o discurso de que os programas sociais acabariam, caso o partido deixasse o comando do país. Paralelamente à redução do impacto desses programas sociais na imagem de Lula, temos o problema da inflação, que não deve ceder nos próximos meses.
Além do desafio de construir uma agenda de futuro e de reduzir a inflação, Lula necessita melhorar a avaliação do governo e convencer a opinião pública de que ele deve concorrer a um novo mandato. Isso porque, de acordo com a Quaest, 62% dos entrevistados avaliam que o presidente não deve disputar a reeleição em 2026.
Paradoxalmente, no entanto, Lula lidera os cenários de intenção de voto para a Presidência em 2026. Se, de um lado, o desgaste de Lula abre espaço para um ambiente de mudança – o que potencialmente beneficia a oposição –, de outro, a oposição não tem um candidato natural para a disputa eleitoral do próximo ano.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que hoje divide a liderança com Lula nas pesquisas, está inelegível e dificilmente conseguirá alterar sua situação jurídica. Bolsonaro, porém, tem sinalizado que continuará tentando viabilizar seu projeto presidencial em 2026. Esse desejo do ex-presidente trava, no curto prazo, o fortalecimento das alternativas da oposição, entre as quais se destacam quatro governadores: Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP); Romeu Zema (Novo-MG); Ratinho Júnior (PSD-PR); e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO).
No tabuleiro, há ainda: a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL); o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP); e o empresário Pablo Marçal (PRTB). Conforme podemos observar, temos variações na direita que abrangem desde o chamado bolsonarismo raiz até a direita mais pragmática. Embora tenham o antipetismo como ponto de convergência, existem diferenças entre esses grupos.
A tendência neste momento é de que a definição do candidato da direita não ocorra no curto prazo. Diante do agravamento de sua situação jurídica, Jair Bolsonaro – que permanece como o grande cabo eleitoral da oposição – necessita manter sua base mobilizada e alimentar a narrativa de que será candidato em 2026. Com esse estratagema, as articulações no campo da direita se mantêm estagnadas.
Não por acaso o governador Tarcísio de Freitas, apontado como o nome da oposição com maior potencial eleitoral, tem optado por dizer que concorrerá à reeleição em São Paulo, repetindo sempre que Bolsonaro é seu candidato ao Palácio do Planalto. Buscando marcar posição e tornar-se mais conhecido, Ronaldo Caiado oficializou o lançamento de sua pré-candidatura na última sexta-feira (4).
Considerando que os governadores que despontam como pré-candidatos precisam nacionalizar seus nomes para se tornarem conhecidos, quanto mais demorar a definição do candidato da direita maiores serão os desafios da oposição. É a partir da escolha desse nome que se dará a construção da política de alianças e do programa de governo da oposição. Como a campanha oficial tem duração de apenas 45 dias, a demora na definição do candidato anti-Lula pode ser benéfica para o governo.

