A operação de busca e apreensão realizada hoje (18) pela Polícia Federal (PF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) eleva a temperatura da crise política e comercial desencadeada pela decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em aplicar um tarifaço de 50% contra produtos brasileiros.
A partir de agora, Bolsonaro terá que utilizar tornozeleira eletrônica e está proibido de utilizar as redes sociais. Além disso, a apuração da PF sobre o ex-presidente teria, segundo a PF, identificado um risco de fuga dele do país. Jair Bolsonaro também não poderá se aproximar de embaixadas e está proibido de se comunicar com embaixadores.
A operação contra Jair Bolsonaro ocorre no dia seguinte a uma sucessiva troca de acusações entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos. Em um discurso realizado na última quinta-feira (18), o presidente Lula (PT) ameaçou taxar as big techs norte-americanas.
Ainda ontem, em entrevista à CNN americana, Lula criticou o tarifaço de Trump, afirmou que o Brasil foi pego de surpresa e declarou que “Trump não deve esquecer que foi eleito presidente ser presidente dos Estados Unidos e não imperador do mundo”. Reagindo a Lula, a Casa Branca defendeu a postura de Donald Trump, disse que o norte-americano é um dos presidentes mais fortes da América e líder do mundo livre.
Também ontem, Donald Trump divulgou uma carta afirmando que “o julgamento contra Bolsonaro precisa parar imediatamente”. E cobrou que o governo brasileiro “mude sua rota”. Trump falou ainda na suposta existência de “ataques a oponentes políticos” e “regime de censura” no Brasil.
Paralelamente a essa troca de acusações, uma matéria de jornal americano The Washington Post mostrou a atuação do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em favor de sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, nos Estados Unidos. Na noite de ontem, em meio a toda essa tensão, foi ao ar um pronunciamento de Lula contra o tarifaço e em defesa da soberania nacional.
A operação de busca e apreensão da PF contra Jair Bolsonaro, além de acirrar o clima político interno no Brasil, deve ter consequências sobre a busca do governo Lula em tentar uma negociação com Donald Trump. Como o presidente dos Estados Unidos está atuando em favor de Bolsonaro, a negociação comercial deve ficar mais difícil. Além disso, novas sanções contra o Brasil podem ser anunciadas. O governo Lula, por sua vez, poderá responder taxando empresas norte-americanas.
Jair Bolsonaro, embora possa reforçar a narrativa de combate ao establishment, animando sua base social mais radical, fica com sua difícil situação jurídica ainda mais agravada. É possível que esta operação aumente a pressão para que Bolsonaro anuncie apoio à candidatura de Tarcísio de Freitas ao Palácio do Planalto.
Lula, por sua vez, a partir do embate com Trump, ganha, do ponto de vista de sua narrativa, a bandeira de defesa da soberania. Apostando em um discurso nacionalista, a aprovação de Lula, a partir da identificação de um “adversário externo”, poderá crescer.
No entanto, como efeito colateral, a relação com os Estados Unidos deve piorar, atingindo negativamente a economia. Outro aspecto a ser observado é que caso o tarifaço seja confirmado em 1º de agosto e o diálogo com o governo norte-americano não avance, os esforços de Lula em favor de uma aproximação com o setor produtivo poderá enfrentar ruídos e ficar comprometida.
O risco jurídico de Eduardo Bolsonaro, também cotado como alternativa para 2026, aumentou. Não à toa, Alexandre de Moraes proibiu Jair Bolsonaro de falar com seu filho. Sua atuação nos EUA pode ser vista como obstrução de Justiça.

