A decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) de tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) réu mexe com a estratégia do Palácio do Planalto para 2026. Como vem ocorrendo desde 8 de janeiro de 2023, o presidente Lula (PT) deverá continuar apostando na narrativa de que ele e seu governo “salvaram a democracia”. O discurso da frente ampla também deverá ser retomado.
O objetivo será manter viva na opinião pública – principalmente se a condenação de Jair Bolsonaro for confirmada – a lembrança sobre a suposta tentativa de ruptura institucional em 2022. Embora mobilize setores da imprensa mais simpáticos a Lula e parte da esquerda dogmática, o discurso da frente ampla e da “defesa da democracia” não deve ter a força que teve na última eleição.
Diferentemente de 2022, agora Lula terá de responder pelo governo que realiza. Neste momento, aos olhos da maioria dos eleitores, o presidente realiza um governo “ruim”. Para mudar essa percepção, ele precisa controlar a inflação e construir uma agenda de futuro, o que ainda não ocorreu. Para o bem ou para o mal, o presidente é visto como o responsável por cuidar da economia. Lula será cobrado por isso e dificilmente conseguirá transferir a agenda desse tema para o debate sobre a democracia.
Outro aspecto a ser observado é que Jair Bolsonaro, se condenado, poderá ser preso. A direita terá outro(s) candidato(s). Como consequência, o debate sobre os atos de 8 de janeiro de 2023 e a responsabilidade de Bolsonaro sobre eles serão vistos como agenda do passado.
Ainda assim, a narrativa da “defesa da democracia” fará parte da pauta de uma eventual candidatura de Lula à reeleição. A estratégia será manter acesa a polarização com Jair Bolsonaro, mesmo que o ex-presidente não possa concorrer. Vale recordar que, pouco depois de assumir o comando da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira estabeleceu a comparação com Bolsonaro como um dos motes da nova estratégia comunicacional palaciana.
Tentar “colar” a rejeição a Bolsonaro, caso ele não seja candidato, no representante da direita ainda pode ter algum efeito. Contudo, se a economia não melhorar e o governo não tiver uma marca própria para o terceiro governo Lula, é improvável que a narrativa de 2022 renda mais uma vitória eleitoral para Lula, uma vez que o eleitorado poderá estar disposto a “virar a página” desse debate.

