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Análise: O impacto político da isenção do IR

O primeiro aspecto a ser destacado é que o governo acertou o timing da proposta

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O projeto de lei que concede isenção do Imposto de Renda (IR) para quem recebe até R$ 5 mil, e prevê desconto parcial para quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, poderá provocar um impacto político positivo no que se refere aos interesses eleitorais do presidente Lula (PT). Potencialmente, são cerca de 10 milhões de pessoas que podem ser beneficiadas.

O primeiro aspecto a ser destacado é que o governo acertou o timing da proposta. Como a isenção do IR entrará em vigor em 2026, a medida poderá trazer dividendos políticos para Lula, que hoje enfrenta muitos desafios. Segundo o instituto Real Time Big Data, 74% dos brasileiros aprovam o projeto.

Quando olhamos a segmentação da avaliação do governo por faixas de renda, a partir de pesquisas do Datafolha realizadas em fevereiro, e do Ipec-Ipsos, feitas em março, percebemos que é elevada a avaliação negativa (“ruim”/”péssima”) entre a parcela da população com renda mensal de mais de 2 a 5 salários mínimos (SM), parcela que será beneficiada pela medida.

No Datafolha, a avaliação negativa nessa faixa de renda é tão alta quanto a registrada no segmento com renda mensal de mais de 10 salários. Por outro lado, a avaliação positiva (“ótimo”/“bom”) entre quem recebe mais de 2 a 5 SM é a mais baixa dos três segmentos. Ou seja, com a aprovação da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, Lula poderá melhorar sua avaliação entre a classe média.

No Ipec-Ipsos, o quadro é parecido. A avaliação negativa entre quem recebe mais de 2 a 5 salários é a segunda mais elevada entre as quatro faixas de renda pesquisadas, ficando abaixo apenas da parcela da população com renda mensal acima de 5 salários. Quanto à avaliação positiva, o índice no segmento com renda de mais de 2 a 5 salários é a segunda mais baixa das faixas de renda pesquisadas.

Hoje, a avaliação negativa nas faixas de renda de mais de 2 a 5 salários, tanto no Datafolha como no Ipec-Ipsos, é maior que a média nacional de desaprovação captada pelos dois levantamentos, que está em 41%.

Segundo dados do IBGE, o segmento com renda mensal de mais de 2 a 5 salários representa cerca de 30% da população. Assim, a partir desse aceno à classe média, Lula poderá melhorar sua popularidade. Porém, isso não será automático. A inflação, por exemplo, caso permaneça elevada, poderá atenuar o impacto positivo da isenção do IR entre a classe média.

Outros pontos

Outro aspecto é que uma parcela da classe média já vota em Lula. Também temos que considerar que o desgaste político do presidente não decorre somente de questões econômicas. A polarização afetiva existente no Brasil, turbinada pelo debate de temas relativos a costumes e puxada pelo conservadorismo, tem colocado a esquerda e o governo na defensiva.

Apesar dos desafios para o governo existentes na agenda, após a aprovação da isenção do IR Lula estará cumprindo uma promessa feita na campanha eleitoral de 2022. Através dessa proposta, criará uma marca nova para o governo, a partir do avanço do debate sobre a reforma da renda. Até o momento, o governo se limitou a reproduzir o legado dos dois governos anteriores do presidente.

Por outro lado, os embates com a elite econômica permanecerão, já que o projeto estabelece que aqueles que ganham mais de R$ 50 mil por mês, o equivalente a R$ 600 mil ao ano, serão tributados com alíquota mínima que pode chegar a 10% por ano. Assim, a cobrança de imposto sobre esse segmento poderá elevar a insatisfação com Lula nos segmentos de maior renda.

Mesmo diante desse cenário desafiador, é possível que a ampliação da isenção do IR ajude Lula politicamente. Como a inflação atinge os segmentos de menor renda, que historicamente é o eleitorado tradicional do lulismo, o presidente poderá não registrar nessa faixa de renda a mesma força política de eleições anteriores. Com isso, necessitará ampliar seu apoio político na classe média, já que os segmentos de maior renda dificilmente serão simpáticos a Lula até 2026.

Hoje, conforme ocorreu nas eleições de 2018 e 2022, a classe média adota uma postura mais crítica em relação a Lula. Não por acaso, nas duas últimas eleições os candidatos do PT – Fernando Haddad, em 2018, e Lula, em 2022 – venceram somente no segmento do eleitorado com renda mensal de até 2 salários. Ou seja, a classe média tem mostrado um comportamento eleitoral mais próximo da população de maior renda. É buscando equilibrar esse jogo na classe média que Lula apostará na isenção do Imposto de Renda, principalmente diante da perda de apoio político em seu eleitorado tradicional.

Autor

  • Vice-presidente e sócio da Arko Advice desde 1999, mestre em Ciência Política pela UnB, professor, palestrante e editor-chefe do "Cenários Políticos" e "Política Brasileira".

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