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Análise: O fim de ciclo e a transição geracional

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O desgaste vivido pelo presidente Lula (PT) combinado com a decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) em tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) réu – diminuindo as possibilidades de ele concorrer novamente ao Palácio do Planalto nas eleições de 2026 – reforçam os sinais de que a política brasileira passa por um fim de ciclo e uma transição geracional.

Faltando pouco mais de um ano para a sucessão de 2026, o lulismo e o bolsonarismo permanecem como as duas principais narrativas que organizam a disputa nacional. Entretanto, ambos estão desgastados. O lulismo, até o momento, foi incapaz de construir uma agenda de futuro para o país. Não por acaso, os desafios para Lula buscar um quarto mandato são cada vez maiores. O bolsonarismo, de outro lado, permanece refém da narrativa radicalizada que mobiliza um contingente barulhento, mas não majoritário da opinião pública.

Paralelamente ao desgaste dos dois principais líderes do país – Lula e Jair Bolsonaro – assistimos a emergência de nomes da chamada nova geração. Temos, hoje, ao menos quatro governadores da transição geracional cotados como presidenciáveis: Tarcísio de Freitas (Republicanos – SP); Ratinho Júnior (PSD-PR); Romeu Zema (Novo-MG); e Eduardo Leite (PSDB).

O também governador Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) é outro nome importante entre os líderes regionais que buscam se posicionar no jogo de poder nacional. Entretanto, Caiado, assim como Lula, são os únicos remanescentes da geração da histórica eleição presidencial de 1989 que seguem politicamente ativos.

A esquerda, por ora, tem fracassado na construção de líderes da nova geração. O PT, diante da dependência de Lula, ficou com a renovação de lideranças nacionais travadas. O único que conseguiu projetar-se nacionalmente foi o hoje ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), que, em 2018, disputou o Planalto, ficando em segundo lugar.

O PSOL, assim como o bolsonarismo, é refém do radicalismo. A narrativa psolista mobiliza apenas a agenda identitária e os segmentos mais dogmáticos de esquerda. O PDT permanece em crise desde a morte de seu grande líder, o ex-governador Leonel Brizola, no distante ano de 2004.

O PSB, que após a precoce morte do ex-governador Eduardo Campos (PE), durante a campanha presidencial de 2014, possui um quadro promissor: o prefeito de Recife (PE), João Campos. Filho de Eduardo Campos, João tem grandes possibilidades de se eleger governador de Pernambuco (PE) em 2026. Outro nome com potencial é a deputada federal Tabata Amaral (PSB-PE). João e Tabata representam uma esquerda arejada, que dialoga com o setor privado, não ficando refém do dogmatismo ideológico e de uma agenda econômica do passado.

Nesta transição geracional, é possível identificar algumas características nas novas lideranças. As opções com maior potencial eleitoral estão majoritariamente mais à direita do espectro ideológico. Essa direita, embora tenha vínculos com o bolsonarismo, é mais pragmática, preocupada com o fiscal e reformista, sem abdicar de um olhar para o social. Essa direita da transição geracional é liberal na economia e sintonizada com as transformações no mundo do trabalho, sobretudo a defesa do empreendedorismo.

A nova geração é herdeira das jornadas de junho de 2013, de um Brasil que ainda está em transição. Lula e Bolsonaro, mesmo permanecendo como os grandes líderes nacionais, emitem sinais de que estão abrindo passagem para um novo ciclo.

Nesta transição, a direita leva vantagem sobre a esquerda, que ficou dependente de Lula, o último grande líder da redemocratização com projeção nacional em atividade, mas que enfrenta dificuldades em operacionalizar um Brasil cada vez mais complexo.

Autor

  • Analista Político da Arko Advice. Doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Bacharel em Ciência Política (ULBRA-RS). Especialista em Ciência Política (UFRGS). Tem MBA em Marketing Político (Universidade Cândido Mendes).

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