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Análise: Movimentos sociais articulam plebiscito popular para pressionar Congresso e reforçar Lula

Consulta nacional prevista para setembro mira temas sensíveis como justiça tributária e jornada de trabalho

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Diante de um cenário político em que o presidente Lula (PT) enfrenta o momento mais crítico de seus três mandatos em termos de popularidade, movimentos sociais e centrais sindicais lançaram na última quinta-feira (10), em São Paulo, uma nova ofensiva: a realização de uma consulta nacional popular em setembro. Batizado de “plebiscito popular”, o processo pretende não apenas levantar a opinião da população sobre temas centrais da pauta progressista, mas também pavimentar o caminho para a mobilização eleitoral de 2026.

O movimento, que envolve diretamente partidos como PT, PSOL e PCdoB, é também uma tentativa de reacender o vínculo com a base social que garantiu a vitória de Lula em 2022. Os temas escolhidos para a consulta — redução da jornada de trabalho sem corte salarial, fim da escala 6×1, e taxação sobre rendas acima de R$ 50 mil para custear a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil — refletem bandeiras de longa data da esquerda. São também temas de amplo apoio popular, que a oposição tem tido dificuldades em se colocar contra.

Ferramenta de debate

Ainda que a consulta não tenha caráter vinculante, seus organizadores esperam que os resultados sirvam de termômetro social e instrumento de pressão sobre o Congresso e o Executivo, especialmente em um momento em que o governo enfrenta resistência parlamentar para avançar em reformas estruturais. A taxação dos super-ricos, por exemplo, enfrenta forte oposição de setores conservadores, mesmo com apoio expressivo da população — segundo o Datafolha, 76% dos brasileiros aprovam a proposta.

A iniciativa vem sendo articulada desde o fim de 2023 pelas frentes Brasil Popular e Povo sem Medo, que congregam centenas de organizações progressistas como o MST, UNE, CUT e MTST. O modelo de consulta remete a experiências anteriores, como o plebiscito informal realizado em 2002 sobre a entrada do Brasil na Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA), que reuniu mais de 10 milhões de votantes, e rejeitou de forma massiva a proposta.

O tratado, proposto pelo então presidente George H. W. Bush em meados dos anos 1990, ofertava que produtores latino-americanos priorizassem a venda de matérias-primas ao EUA, recebendo em troca a possibilidade de ter algum espaço no mercado dos Estados Unidos. A falta de detalhamento na parte estadunidense fez com que a maioria dos países da América Latina recusasse a proposta.

Definição de rota

O lançamento do plebiscito na tradicional Faculdade de Direito da USP teve ares de rearticulação simbólica da esquerda. Presenças como a do ex-ministro José Dirceu e do deputado estadual Antonio Donato, líder do partido na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) indicam que, mais do que uma consulta informal, o plebiscito popular é também uma plataforma de reencontro das forças que sustentaram Lula até aqui — e que agora se preparam para o embate político que se avizinha. Unindo lideranças antigas e novas.

É um reposicionamento estratégico: se o governo enfrenta dificuldades em avançar institucionalmente, a rua pode voltar a ser um dos principais campos de disputa política. E a esquerda parece disposta a retomá-la, com os olhos voltados para 2026, e a futura sucessão de Lula que, aos 79 anos, precisa montar um forte apadrinhado político para manter seu legado — e no fim, de toda a esquerda atual.

Cenários para 2026

Fora das ruas, mas forte nas redes sociais, a oposição bolsonarista a Lula promete fazer uma eleição de tomada do Senado Federal. Setores conservadores, em especial os evangélicos, vêm se movimentando para colocar uma maioria de extrema-direita na Casa Alta, podendo assim pautar temas que lhes são essenciais, como por exemplo o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em 2022, a esquerda conseguiu apenas cinco das 27 cadeiras ao Senado em disputa. Os candidatos da extrema-direita, 14. Para 2026, vão ser colocadas em disputa 12 das 17 vagas que a esquerda possui no Senado, sendo que sete delas ficam fora da região Nordeste.

Autor

  • Jornalista formado pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Com experiência em Política, Economia, Meio Ambiente, Tecnologia e Cultura, tem passagens pelas áreas de reportagem, redação, produção e direção audiovisual.

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