Nas últimas semanas, o rápido escalonamento das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) mobilizou deputados da oposição no Congresso Nacional. Contrários às determinações do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), os parlamentares do PL furaram o “recesso branco” e marcaram deliberações nas comissões que comandavam. Eles planejavam votar moções de apoio a Bolsonaro. A mobilização reacendeu o embate da oposição com o chefe da Casa.
A relação da oposição com Motta enfrentou altos e baixos este ano. A oposição começou 2025 dizendo-se próxima de Motta, que, segundo relatos, teria prometido dar andamento à anistia aos presos pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 em troca de apoio. A primeira decepção da direita aconteceu quando, pressionado, o novo presidente da Casa remeteu a decisão ao Colégio de Líderes, o que, na prática, impediu a votação. Na ocasião, os bolsonaristas chegaram a acenar com um possível rompimento de relações.
O segundo atrito veio quando, diante da crise do INSS, Motta decidiu barrar a criação de uma CPI na Câmara. Segundo líderes da oposição, Motta teria se comprometido a autorizar a formação do colegiado se as assinaturas necessárias fossem recolhidas. Mesmo após a meta batida, não houve a instalação. Um momento de respiro na relação só surgiu quando, novamente pressionado, o presidente da Casa pautou e conduziu a derrubada do decreto do presidente Lula (PT) que elevou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Agora, bolsonaristas e o presidente da Câmara voltam a entrar em rota de colisão. Motta teria ficado incomodado com o descumprimento de sua decisão sobre as deliberações nas comissões durante o recesso. Além disso, o decreto impedindo as sessões pode ser interpretado como uma resistência à utilização do espaço da Câmara para mandar mensagens ao Supremo.
Mas estar mal com a oposição não significa estar bem com o governo. Barrar manifestações bolsonaristas no Congresso foi bem-visto pelo Planalto, mas não apaga todo um histórico de conflitos. Ao pautar o aumento no número de deputados, Motta deu início a uma guerra informacional entre o governo e a Câmara. Após a aprovação na Casa, críticas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, serviram de estopim para uma crise ainda mais pronunciada. Irritado, Motta convocou a votação sobre o aumento do IOF e guiou sua derrubada. Na ocasião, foi acusado de quebrar um acordo que daria mais prazo ao governo para buscar alternativas.
Após essa série de atritos com os dois lados da Câmara, Motta inicia o segundo semestre com posição fragilizada e dificuldades para definir o perfil de seu mandato como presidente. Se persistir, a situação pode ficar imprevisível, agravada pela aproximação do período eleitoral e por um ambiente de contínuo embate entre os Poderes.

