A reação gerada no mundo político, entre os agentes econômicos e entre a opinião pública pela decisão do governo de elevar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), desgastando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), pode ser interpretada como sintoma de um governo sem rumo. E essa falta de rumo é perceptível em três dimensões: 1) na economia; 2) na articulação política; e 3) na imagem do governo.
Na dimensão econômica, a forma como se deu o anúncio do aumento do IOF indica que o governo está sem agenda. Além de expor publicamente as divergências entre a Fazenda e o Banco Central, já que o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, declarou publicamente ser contra o aumento do IOF, o episódio mostra que Haddad está isolado no governo e politicamente desgastado, devido às sucessivas derrotas que tem sofrido. A perda de confiança no projeto econômico da gestão Lula 3, verificada no mercado desde o fim do ano passado, transbordou para a arena política e a opinião pública.
Na articulação política, o governo também acumula problemas. No episódio do aumento do IOF, o Parlamento foi desconsiderado nas discussões e reagiu enviando importantes recados. O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), em meio à pressão dos agentes econômicos para que o Congresso anule o decreto que elevou o IOF, afirmou que o país “não precisa de mais impostos”. Motta e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), deram um prazo de dez dias para que Haddad revogue o aumento. Se isso não ocorrer, o decreto deverá ser derrubado no Congresso, o que significaria uma expressiva derrota política para o governo.
A desarticulação política também ficou visível na semana passada pela falta de apoio à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), durante o debate ocorrido na Comissão de Infraestrutura do Senado sobre a atuação de órgãos ambientais na exploração do petróleo na Margem Equatorial (região costeira que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte). Após um intenso bate-boca, Marina ficou sem o apoio da base governista e optou por deixar a comissão. Outro sintoma dessa fragilidade política do governo no Congresso é a criação da CPMI para apurar as fraudes no INSS, prevista para ser instalada em julho.
Essa falta de rumo atinge negativamente a imagem do governo. Ao propor o aumento do IOF, ganha força na opinião pública a narrativa de que o presidente Lula (PT) “aumenta impostos”. Some-se a isso as denúncias de fraude no INSS, alimentando o discurso da oposição sobre a existência de corrupção em governos petistas e reavivando a memória dos escândalos do Mensalão e do Petrolão.
A fragilização da imagem do governo torna mais difícil para o presidente melhorar a sua popularidade. Mesmo que a sua aprovação tenha parado de cair, a desaprovação segue em alta, gerando um saldo negativo de popularidade.
Diferentemente do que foi verbalizado pelo governo quando o publicitário Sidônio Palmeira assumiu a Secretaria de Comunicação, em janeiro deste ano, os problemas não se resumem a uma suposta deficiência na comunicação. Há também o fato de o governo Lula 3 ainda não ter obtido sucesso na construção de uma marca. Além disso, o governo está sem reação diante dos desafios fiscais que se apresentam, optando por reempacotar as medidas sociais dos governos Lula 1 e 2 em uma conjuntura econômica e política totalmente distinta.
Nem mesmo os números positivos de crescimento do PIB e do emprego no país, nem tampouco a leve desaceleração da inflação, têm produzido efeitos positivos para a imagem do governo. Como consequência, Haddad perde prestígio a cada revés da agenda econômica.
O governo, por ora, tem se caracterizado por uma tímida atuação de seus ministros, devido à falta de rumo. Nesse ambiente, Lula se agarra à narrativa messiânica. Na semana passada, na Paraíba, ao falar sobre as obras da transposição do rio São Francisco, afirmou que “Deus deixou o sertão sem água porque sabia que eu seria presidente”.
O foco da comunicação de Lula é o eleitorado de menor renda, que constitui o núcleo-duro do lulismo, público em que o presidente perdeu popularidade devido aos efeitos negativos da inflação. Apesar da narrativa salvacionista de Lula ainda repercutir positivamente nesse segmento, apenas a reedição do discurso do passado não deverá ter o poder de reverter o cenário desfavorável ao presidente.
Outro problema é o fato de a agenda econômica do Executivo ser diferente da do Congresso Nacional. Ao apostar em medidas tradicionais da esquerda, como o expansionismo fiscal e providências paliativas de controle de despesa sem dialogar com o Parlamento, o relacionamento político fica ainda mais complexo, deixando instável a frágil base aliada. Assim, nesta segunda metade do governo Lula 3, temos uma gestão errática que a cada dia fica mais isolada do Congresso, dos partidos, dos agentes econômicos e da sociedade.

