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Análise: Governo Lula 3 enfrenta “cansaço” e mudança estrutural na opinião pública

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A mais recente pesquisa Datafolha confirmou o desgaste vivido pelo presidente Lula (PT) nos últimos meses. A avaliação positiva (“ótimo/bom”) do governo caiu 11 pontos percentuais, chegando a 24%. A avaliação negativa (“ruim/péssima”) aumentou 7 pontos, atingindo 41%. O índice “regular” cresceu 3 pontos, alcançando 32%.

A leitura corrente atribui a perda de capital político de Lula a dois fatores: 1) o aumento da inflação, principalmente dos alimentos; 2) o impacto negativo da tentativa de fiscalizar o PIX.

O governo parece ter compreendido que a queda de popularidade não é apenas um problema de comunicação, mas sim estrutural.

O primeiro aspecto é a ausência de uma marca no governo Lula 3. A narrativa da defesa da democracia, que havia ganhado fôlego após os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, se revela com efeito político limitado. Por ora, o governo Lula se restringe a requentar a agenda dos governos Lula 1 e 2.

O segundo aspecto é a dificuldade do governo em lidar com as transformações em curso no Brasil. Além da dificuldade do presidente em operar em um ambiente institucional marcado pelo maior poder político e orçamentário do Congresso, a influência de atores como o mercado e o agronegócio – pilares da nossa economia – é cada vez maior.

Na sociedade, o Brasil também está muito distinto de 2010, quando Lula encerrou seu segundo mandato. Desde 2015, a direita possui boa capacidade de mobilização. Ainda que seja heterogênea, a direita está estruturada nas redes sociais e em diretórios partidários. Some-se a isso a crescente influência dos evangélicos e dos valores conservadores. Também merece destaque a metamorfose no mercado de trabalho, com a ascensão do empreendedorismo.

A esquerda, pelo seu lado, desde 2015 não tem conseguido responder aos desafios do Brasil pós-jornadas de junho de 2013. O PT e parte importante do campo progressista não veem a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro em 2022 como um triunfo da esquerda, mas sim da chamada “frente ampla”, que teve fôlego curto.

Além disso, o resultado de 2022 se deveu mais ao desgaste político vivido pelo ex-presidente Bolsonaro do que a uma especial simpatia do mercado eleitoral pela volta de Lula ao poder. Embora a nostalgia do passado tenha tido um peso importante a favor de Lula, o apertado resultado nas urnas já indicava uma grande divisão no país.

Não por acaso, neste terceiro governo Lula, mesmo com o PIB crescendo e o desemprego sendo um dos mais baixos da história do Brasil, a popularidade do presidente seguia estagnada, sugerindo que o comportamento mais crítico do eleitor não se relaciona somente a questões conjunturais.

Também chama atenção na pesquisa Datafolha o fato de a avaliação positiva do governo estar em queda em todas as faixas de renda. No segmento com renda mensal de até dois salários mínimos, base tradicional do lulismo desde 2006, o índice positivo caiu 15 pontos (44% para 29%). Entre os que recebem entre dois e cinco salários, a avaliação positiva baixou 9 pontos (26% para 17%).

Na faixa de renda entre cinco e dez salários, o percentual positivo caiu 7 pontos (25% para 18%). Entre os que ganham mais de dez salários, o índice despencou 14 pontos (32% para 18%). Em três das quatro faixas de renda citadas, a avaliação positiva ficou abaixo de 20%. Mesmo na base social de Lula, o índice positivo se mostrou inferior a 30%. Além de a classe média estar mais distante de Lula, o contágio do pessimismo entre os mais pobres indica que a figura de Lula já não consegue manter o prestígio na própria base.

O fato de a base tradicional lulista apresentar hoje um comportamento mais crítico indica frustração com a expectativa criada em torno da volta de Lula ao Planalto. Tal frustração também revela certo “cansaço” por parte de parcelas da sociedade com o presidente, dando sinais de que a perda de confiança no governo não se restringe aos agentes econômicos, transbordando para a sociedade.

Autor

  • Analista Político da Arko Advice. Doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Bacharel em Ciência Política (ULBRA-RS). Especialista em Ciência Política (UFRGS). Tem MBA em Marketing Político (Universidade Cândido Mendes).

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