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Análise: Governo ganha narrativa e Lula poderá se beneficiar

Ancorado na rejeição provocada pelo tarifaço no setor produtivo, no mundo político e na opinião pública, Lula utilizará a narrativa da defesa da soberania

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O tarifaço de 50% sobre todos os produtos brasileiros anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como retaliação à postura do Supremo Tribunal Federal (STF) com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), provoca consequências imediatas e desdobramentos futuros sobre o governo Lula (PT) e o bolsonarismo.

Inicialmente, o presidente Lula ganha uma oportunidade para criar um ambiente de unidade nacional similar ao ocorrido no pós-8 de janeiro de 2023 em defesa da democracia.

Ancorado na rejeição provocada pelo tarifaço no setor produtivo, no mundo político e na opinião pública, Lula utilizará a narrativa da defesa da soberania para ampliar o diálogo com setores que foram se afastando do governo nos últimos meses. Na entrevista que concedeu ao Jornal Nacional, da TV Globo, na última quinta-feira (10), o presidente anunciou a intenção de reunir os empresários que exportam para os Estados Unidos.

A questão democrática também fará parte da narrativa de Lula, já que Trump, em sua carta ao presidente brasileiro, endossou a narrativa de uma suposta perseguição política por parte do STF contra Bolsonaro.

O mote central de Lula é a defesa da soberania. O “ataque” realizado pelos Estados Unidos contra o Brasil coloca o governo em vantagem na disputa pela narrativa do patriotismo. Nas redes sociais, circula um card com o slogan “Respeita o Brasil”, utilizando o verde e amarelo, além da bandeira nacional. Vale lembrar que, desde 2018, o bolsonarismo vem se apropriando dos símbolos nacionais. O verde e o amarelo, assim como a bandeira brasileira, estiveram presentes nas campanhas presidenciais de Bolsonaro de 2018 e 2022.

O governo também explora a contradição existente no discurso patriótico do bolsonarismo, já que o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL) tem atuado fortemente em favor de sanções contra o Brasil.  Além disso, o posicionamento da família Bolsonaro em favor de Trump será explorado como um sinal de que o bolsonarismo defenderia os interesses norte-americanos em detrimentos dos interesses brasileiros.

No entanto, o governo terá desafios pela frente. Caso Trump não recue nas tarifas, a economia brasileira será afetada. Mesmo que inicialmente a reação negativa ao tarifaço crie uma oportunidade para Lula e coloque Jair Bolsonaro na defensiva, uma eventual deterioração do cenário econômico será creditada a Lula, pois quem responde pela economia do ponto de vista da população é o presidente da República. Assim, a eficácia da estratégia do governo dependerá dos resultados concretos que Lula for capaz de entregar.

Apesar desses desafios, Lula, por enquanto, se beneficia. O tarifaço cria um fato novo na agenda, deixando em plano secundário temas como o debate em torno do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e o ressarcimento das vítimas da fraude no INSS. Além de poder aumentar sua aprovação, Lula poderá melhorar o diálogo com o Congresso Nacional.

Outra vantagem para Lula é a divisão da oposição. Neste momento, a narrativa de Trump é defendida apenas pelos segmentos mais fiéis a Jair Bolsonaro. Mesmo que tais setores sejam barulhentos, são minoritários. Além de uma eventual divisão da direita, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que desponta como o nome com maior competitividade na oposição para a sucessão presidencial em 2026, ainda procura encontrar seu melhor posicionamento, que já foi ajustado três vezes.

Primeiro, Tarcísio atacou Lula, afirmando que o presidente estaria colocando sua ideologia acima da economia”. Em uma segunda mudança de posicionamento, reuniu-se com o encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos, Gabriel Escobar, em Brasília (DF), para defender os interesses de São Paul, já que o Estado, com 34% de suas exportações para os Estados Unidos, é o mais afetado pelo tarifaço.

Houve ainda uma terceira mudança de posicionamento por parte de Tarcísio, quando ele passou a pregar uma união de esforços em defesa da indústria e do agronegócio.

Aliado de Bolsonaro, Tarcísio não pode adotar um discurso que gere contradição com a narrativa de Jair Bolsonaro em favor de Trump. Por outro lado, Tarcísio será pressionado pelo setor produtivo a ajudar a baixar a temperatura do clima político. O governador paulista também virou alvo da esquerda, que está compartilhando nas redes sociais uma foto sua com o boné da campanha de Donald Trump nas eleições de 2024.

A pressão política e econômica realizada por Donald Trump, além de isolar Jair Bolsonaro, não altera a fragilidade jurídica do ex-presidente no STF. Assim, a tentativa dos bolsonaristas de responsabilizar Lula pelo tarifaço terá efeito político limitado.

Quanto a Eduardo Bolsonaro (PL), é possível que seus problemas jurídicos no Brasil sejam agravados, ainda que tenha trânsito na Casa Branca e tenha conseguido aumentar seu protagonismo.

O tarifaço gera descontentamento, também, em setores econômicos simpáticos a Jair Bolsonaro, caso do agronegócio. Como o pragmatismo tende a prevalecer, esses segmentos podem afastar-se do ex-presidente.

A tendência é que a guerra de narrativas e a polarização entre o lulismo e o bolsonarismo cresçam. Por ora, a vantagem está com o governo, que conseguiu apropriar-se da defesa da soberania, enfraquecendo a narrativa patriótica do bolsonarismo. Além disso, o governo também conseguiu pautar o debate do IOF, transformando essa discussão num embate entre “ricos x pobres” diante da opinião pública.

Autor

  • Analista Político da Arko Advice. Doutorando em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Bacharel em Ciência Política (ULBRA-RS). Especialista em Ciência Política (UFRGS). Tem MBA em Marketing Político (Universidade Cândido Mendes).

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