O governo Lula já vinha com problemas – além de enfrentar dificuldade em manter coesa sua base no Congresso Nacional, tem sofrido com a baixa popularidade. Agora, foi atingido por um escândalo de grande apelo popular. A Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF), revelou um esquema de cobranças irregulares nos benefícios de aposentados e pensionistas do INSS que pode ter movimentado, entre 2019 e 2024, até R$ 6,3 bilhões. A dimensão da fraude e seu impacto direto em uma parcela vulnerável da população, como idosos e deficientes, têm forte potencial de danos à imagem do governo.
A fraude se apoiava em convênios com entidades que ofereciam benefícios aos segurados, mas que operavam com autorizações falsificadas. O esquema, segundo a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU), teria começado em 2016, se intensificado em 2019 e ganhado força em 2022, com uma normativa que facilitou esses convênios.
A resposta foi rápida, mas pode não ser suficiente para estancar a crise. O governo exonerou o presidente do INSS e prometeu ressarcir os segurados. No entanto, o processo de devolução deve ser lento e pode depender de levantamento individualizado, espaço fiscal e eventual recuperação dos valores. Um grupo de trabalho será criado, mas ainda sem prazo definido.
O Planalto tenta sustentar a narrativa de que a descoberta da fraude é mérito do próprio governo. Contudo, a inércia diante do aumento das reclamações não atendidas dos atingidos entre 2023 e 2024 – já na gestão Lula – fragiliza essa versão. O posicionamento do ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT), padrinho político do presidente do INSS demitido, também levanta dúvidas sobre o compromisso real com a investigação. Sua posição constrange o governo, mas sua saída poderia tensionar a aliança com o PDT em meio à crise de governabilidade.
Uma audiência pública com o ministro na próxima semana e a tramitação da medida provisória do consignado no setor privado devem manter o tema em evidência. Além disso, a oposição se mobiliza para instalar uma CPI e capitalizar sobre a crise. A coleta de assinaturas deve ser impulsionada pela reorganização da oposição promovida em torno do PL da Anistia.
A fragilidade social das vítimas e a simplicidade da narrativa – o Estado aparelhado para aplicar golpes em aposentados – alimentam a indignação pública. A percepção da população é de que a máquina estatal foi, ao menos, permissiva. O questionamento que permanece é se Lula e seus auxiliares vão minimizar o caso ou se têm consciência do potencial de danos, o que é essencial para que seja dada uma resposta à altura do problema.

