A última semana se encerrou com a maior crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos de nossa história como nação. O quadro é grave, pois o passivo que o Brasil acumulou com os Estados Unidos não pode ser eliminado com rapidez. A imprudência de nossa diplomacia provocou a reação americana, na qual a questão Jair Bolsonaro funciona como um aditivo à crise — mas não é a razão principal.
Nos últimos dias, em resposta às ameaças americanas, o Brasil reagiu com bravatas e com a decisão de impor tornozeleira eletrônica a Bolsonaro. A medida, apoiada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), endossou de forma subliminar a acusação de Alexandre de Moraes de que os Estados Unidos seriam “inimigos estrangeiros”. O gesto acabou por colocar Bolsonaro no centro da crise.
Em resposta, o presidente Lula escalou o vice-presidente Geraldo Alckmin para liderar os esforços de pacificação. No entanto, desconsiderou-se o fato de que Alckmin foi fotografado ao lado de terroristas — posteriormente mortos — durante uma cerimônia em Teerã. Tal fato cria resistências à sua figura como negociador.
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A prateleira de reclamações dos Estados Unidos em relação ao Brasil vai muito além da questão Bolsonaro. Contudo, ela está sendo instrumentalizada para justificar retaliações não tarifárias — como a anunciada suspensão de visto americano para Alexandre de Moraes e, sem confirmação oficial, para outros ministros do STF.
Neste momento, o governo americano avalia novas sanções, com o objetivo de fazer do Brasil um exemplo dissuasivo para os demais países do BRICS. Entre as medidas em análise estão: aumento do tarifaço para até 100%, suspensão da concessão de vistos para brasileiros que desejem visitar os EUA e a abertura de investigações no sistema financeiro americano sobre transações que possam envolver políticos e ministros brasileiros, inclusive do STF. As redes sociais bolsonaristas alimentam especulações divulgando que as sanções poderiam atingir a suspensão do uso de satélites americanos para o sistema GPS, investigar redes de televisão consideradas aliadas de Alexandre de Moraes ou mesmo suspender o sistema financeiro do sistema SWIFT de validação internacional de transações financeiras.
Obviamente com muitos incendiários na cena, tais aspectos podem ser consideradas hipóteses. Mas antes de chegar a esse nível de sanção ao Brasil, outros temas – como os mencionados no parágrafo anterior – podem vir à pauta.
O Brasil avalia como retaliar os Estados Unidos. Caminhar para um tarifaço é uma das hipóteses. Mas muitos setores econômicos importantes do país dependem das importações norte-americanas. O que recomendaria elevada prudência por parte do Brasil. Impor impostos às bigtechs está na pauta, mas também é um tema complexo. Suspender vistos de autoridades norte-americanas seria um gesto simbólico, mas inócuo, pois ninguém em Washington está interessado em vir para o Brasil. Suspender a entrada de americanos no pais seria um tiro no pé do turismo brasileiro que, no ano passado, recebeu mais de 600 mil turistas.
Em busca de um negociador
O Brasil precisa, com urgência, de um negociador. A diplomacia está paralisada por sua ineficiência no caso norte-americano e pelo antiamericanismo que permeia declarações e atitudes oficiais. Os caminhos para a negociação são estreitos e tortuosos. Devem passar, em nossa opinião, pelas autoridades econômicas e financeiras do Brasil, bem como pelo setor privado — que ainda se encontra atônito com os últimos acontecimentos. São poucos os negociadores no governo que estão efetivamente disponíveis, sobretudo por se tratar de uma administração provinciana e ideologicamente preconceituosa.
Do lado norte-americano, há pouca disposição para negociar com o Brasil. Os EUA encontraram um alvo ideal para demonstrar ao mundo seu poder. Afinal, o Brasil mantém profunda dependência das relações tecnológicas, financeiras e comerciais com os Estados Unidos. Em suma, os EUA estão com a faca e o queijo na mão, e o Brasil tem pouco a oferecer.
O que não entra (e não deve entrar) em discussão
Anistiar Jair Bolsonaro está fora de cogitação e representaria uma humilhação para o STF e para o país — especialmente após as declarações de Eduardo Bolsonaro, de que não haverá eleições sem a participação de seu pai. A consequência de prosseguir com o julgamento será o aumento da pressão sobre os ministros do Supremo.
No campo tarifário, poderá haver espaço de negociação se os setores americanos prejudicados pelas importações brasileiras atuarem junto ao governo dos EUA. Isso pode resultar em exceções às penalizações. O Brasil, por sua vez, poderá fazer concessões em áreas comerciais e de serviços.
Na esfera geopolítica, o impasse é maior. O governo norte-americano busca desmontar o BRICS, e vem negociando diretamente com Índia e China. O Brasil, isolado, terá que rever suas narrativas — como a proposta de moeda única, entre outras. Além disso, há outras pautas sensíveis: a situação da tríplice fronteira, a leniência com grupos terroristas, a recusa em classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas e o histórico apoio à Venezuela — agravado pela suspeita de que o Brasil estaria facilitando a exportação de petróleo venezuelano.
Portanto, diante de uma pauta extensa e da baixa capacidade de negociação brasileira, a situação tende a se agravar. Para, ao menos, estabilizar o quadro, será imprescindível contar com negociadores competentes e com acesso real ao núcleo duro do governo americano.

