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Análise: Anonimato e redes sociais

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Sempre presente em várias áreas da sociedade, a discussão em torno do anonimato nunca foi tão atual quanto agora, com o aumento da importância das redes sociais na economia e na política. Um marco nesse debate, ocorrido ainda no governo Collor, foi quando o Banco Central proibiu cheques ao portador e outras práticas que ocultavam a identidade das pessoas que realizavam transações financeiras significativas. A medida contribuiu enormemente para imprimir maior transparência ao sistema financeiro, reduzindo de forma significativa as chances de lavagem de dinheiro e de evasão fiscal. As reformas que se seguiram reforçaram essa abordagem e solidificaram um sistema mais controlável e ético.

Hoje, a questão do anonimato nas plataformas de mídia social gera preocupações semelhantes, uma vez que a informação se tornou um recurso às vezes até mais valioso do que o dinheiro em si. Pois é possível auferir benefícios financeiros com a assimetria de informações e com a difusão de informações falsas. Por isso é justificável exigir que as redes sociais combatam o anonimato e identifiquem autores de conteúdo enganoso ou difamatório.

O tema do anonimato na mídia foi discutido no século XIX por Arthur Schopenhauer. O pensador alemão criticava veementemente o uso do anonimato na comunicação escrita, em especial no jornalismo e na crítica literária. Para ele, o anonimato permitia que se atacasse a reputação alheia e se divulgassem informações falsas. Em seu livro Parerga e Paralipomena, de 1850, ele escreveu: “O anonimato é o escudo dos medíocres e o refúgio daqueles que não têm coragem de se responsabilizar por suas palavras e intenções”.

Assim, para Schopenhauer, o anonimato era um mecanismo de covardia intelectual. Ele acreditava que os que desejam expressar suas opiniões devem estar dispostos a colocar o próprio nome sob as próprias palavras. Tal ideia tem eco em nosso contexto contemporâneo, em que perfis anônimos disseminam desinformação prejudicial nas redes sociais sem se responsabilizarem por seus atos ou palavras. Ao permitir que indivíduos se escondam sob anonimato nas plataformas digitais, reproduzimos, ainda que em uma escala muito mais ampliada, o problema apontado por Schopenhauer na imprensa de sua época.

Em sociedades democráticas modernas, é crucial valorizar e proteger o direito à livre expressão. Mas é igualmente essencial combater ativamente a propagação deliberada de desinformação e difamação. Assim como o setor financeiro no Brasil se adaptou para ser mais transparente e responsável, é imperativo que o ambiente digital siga o mesmo caminho. Exigir que plataformas on-line identifiquem e responsabilizem aqueles que disseminam fake news ou ataques injustos não é uma restrição à liberdade de expressão. É uma medida para preservar a integridade e a qualidade dos debates públicos. Considerando o cenário atual das redes sociais, as ideias de Schopenhauer permanecem mais válidas do que nunca.

Publicado também em VEJA de 21 de março de 2025, edição nº 2936

Autor

  • Murillo de Aragão: Advogado, jornalista, cientista político, professor e presidente da Arko Advice. Mestre e doutor em Ciência Política, membro de várias associações acadêmicas. Ex-membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Palestrante internacional e autor de livros. Colunista na revista Veja. Professor-adjunto na Columbia University.

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